Segunda-feira, 13 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 13 de julho de 2026
Na última semana de junho, a China impôs controles de exportação para 40 empresas japonesas, alegando que seus produtos poderiam ser utilizados pela indústria militar nipônica. Em resposta, o Japão se distanciou de seu vizinho asiático em parcerias comerciais e estratégicas. A tensão histórica entre os dois países ganhou, então, mais um capítulo – um dos mais explícitos dos últimos anos.
O bloqueio das últimas semanas foi um alarme para uma rivalidade adormecida e que tem sido um dos alvos, mesmo que indireto, das medidas da primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi.
Em novembro do ano passado, dias após assumir o cargo, Takaichi afirmou que caso houvesse uma tomada de Taiwan pela China usando aparatos como navios de guerra, seu país poderia se envolver no conflito por considerar uma ameaça ao redor do território japonês.
“A chamada contingência de Taiwan tornou-se tão grave que precisamos nos preparar para o pior cenário possível”, afirmou Takaichi.
Desde então, a China tem dificultado a exportação de produtos e a mobilidade entre os dois países, com a diminuição de voos diretos e restrição de intercâmbios acadêmicos, além de quase cessar o acesso do Japão às suas terras raras.
“O que essa crise diplomática em curso ilustra é que o Japão e a China mudaram o modus operandi de suas relações bilaterais. Enquanto, no período pós-guerra até o início dos anos 2000, ambos os países seguiram um manual diplomático que separava estritamente a política da economia, hoje, o comércio e a política estão entrelaçados e são utilizados como armas”, diz Sebastian Maslow, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Tóquio.
Ao longo da história, China e Japão compartilharam momentos de atrito e briga por poder na Ásia. A tomada de partes do território chinês pelos japoneses durante a 2ªGuerra Mundial ainda é uma ferida aberta para o governo de Xi Jinping, que considera que os nipônicos não se desculparam o suficiente. Na época, de 200 mil a 300 mil chineses foram mortos pelas forças militares japonesas.
É após esse período que surge uma cláusula da constituição japonesa que a premiê tenta mudar com manobras políticas e de reforço à sua defesa. Após a rendição do Japão, em 1945, o país ficou proibido de manter um Exército e forças militares em seu território. Assim, o Japão não pode, oficialmente, manter um potencial bélico, com a exceção de ter uma espécie de polícia de autodefesa.
Mas, para Takaichi, essa denominação já não atende às necessidades do país, que se sente ameaçado por uma China cada vez mais poderosa e vê nos EUA um aliado pouco confiável no momento.
“Atualmente, não está claro se há outras medidas disponíveis para exercer pressão sobre o Japão, mas as tensões estão aumentando. O problema é que os sistemas de gestão de crises entre os dois países provavelmente não funcionariam de maneira eficaz caso ocorresse um incidente inesperado. Em outras palavras, o ambiente é tal que uma escalada poderia ocorrer facilmente”, afirmou Shin Kawashima, professor do departamento de relações internacionais da Universidade de Tóquio.
Apenas em 2025, segundo um relatório do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês), o Japão ficou na décima colocação em gastos militares, tendo dedicado cerca de US$ 62,2 bilhões, 1,4% de seu PIB. Esse investimento significou um aumento de 9,7% em relação à 2024 e de 61% em relação à 2016. Neste ano, os gastos previstos podem passar da cifra de US$ 58 bilhões.
De acordo com o governo japonês, esse aumento nos gastos de defesa está acontecendo pela necessidade de uma autodefesa para a regularização de um exército. A ameaça atual seria, além do crescimento do arsenal chinês, um temor em relação à Coreia do Norte e à Rússia, que fazem treinamentos bélicos no Pacífico, além da própria questão de Taiwan, que fica a cerca de 110 km de distância do Japão.
Do lado da China, é o investimento japonês em seu aparato de defesa que desperta desconfiança e representa uma ameaça, principalmente, porque seria um abandono da cláusula de paz nipônica. Pequim ainda acredita que a aliança entre Japão e EUA é um ativo perigoso para o país.
“Quando o Japão aumenta seu processamento de defesa, a China começa a perceber como uma ameaça para ela. Porque ela pensa: ‘por que o Japão está aumentando seus orçamentos? O que que isso significa?’. Então, hoje, a gente está em uma situação em que cada um sente o outro como uma possível ameaça e isso leva a esse crescimento na tensão”, explicou Alexandre Uehara, professor de relações internacionais da ESPM-SP. Com informações do portal Estadão.