Sábado, 07 de março de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 7 de março de 2026
O cientista político e sociólogo Alberto Carlos Almeida costuma ser uma voz que a esquerda considera relevante ouvir para tomar decisões. Antes de lançar seus últimos dois livros, foi recebido em Brasília por petistas como o presidente Lula, os ministros da Casa Civil, Rui Costa, e da Secretaria das Relações Institucionais, Gleisi Hoffman, e os senadores Jaques Wagner e Humberto Costa.
“A mão e a luva: o que elege um presidente” enaltece a importância dos resultados econômicos para um governante ser bem avaliado e, consequentemente, se reeleger. “A cabeça do brasileiro, vinte anos depois: o que mudou” lança luz sobre o perfil conservador do eleitor brasileiro. Em entrevista para a newsletter “Jogo Político”, Almeida explica por que considera em risco a reeleição de Lula em outubro mesmo com o petista na liderança das pesquisas.
Veja os principais trechos da entrevista:
O caso Master atinge ministros do Supremo Tribunal Federal, o PT da Bahia, o Centrão e parte da direita. Na corrida presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, quem sairá como o maior prejudicado?
O Lula. O Caso Master atinge o sistema como um todo e, hoje, quem simboliza tudo isso é o presidente, e não o Jair Bolsonaro e o seu filho. O escândalo reforça percepções como “todo político é ladrão, nada muda no Brasil”. As denúncias no INSS vão pelo mesmo caminho, é tudo ruim para o governo. Agora, ainda não é possível dizer que corrupção será o grande tema da eleição, teremos que ficar atentos naquela pergunta típica das pesquisas: “Qual a sua maior preocupação?”. Esse dado oscila. Em 2005, por exemplo, o mensalão durou como escândalo que impactou a avaliação do Lula de meados do ano até novembro. Depois, o presidente passou a recuperar a popularidade, e venceu a eleição.
No fim de fevereiro, o presidente do PT, Edinho Silva, falou que Flávio Bolsonaro é a “essência do fascismo”.. É repetindo a estratégia de 2022 contra a direita que o Lula vai vencer a eleição de outubro?
É bobagem essa estratégia de chamar Flávio dessas coisas. Venho dizendo e reafirmo: ele é um candidato mais difícil de ser batido do que o Tarcísio de Freitas (governador de São Paulo). O Tarcísio teria que ficar fazendo sinais para a direita o tempo todo para se mostrar confiável e isso teria impacto na rejeição. O Flávio não precisa de nada disso, pode passar o ano inteiro se vendendo como moderado e sinalizando ao centro desde já. Lula versus Flávio será uma disputa sobre quem vai ter menos rejeição. Como estratégia, o melhor para o PT será jogar o Flávio para dentro do sistema também. Lembrar que ele é político, que é senador, que os aliados dele estão envolvidos no caso Master, lembrar a rachadinha. É por aí, e não falando de fascismo.
Mesmo assim, você tem dito nas redes que o Lula também vai precisar melhorar a própria popularidade para ganhar a eleição. Por quê?
Neste momento, o Lula é favorito para perder. Há anos, utilizo o dado de avaliação do governo em ótimo ou bom como régua. Lula fechou o ano na casa dos 30% neste quesito em várias pesquisas, mas os últimos levantamentos nas mãos do governo estão indicando o presidente na casa dos 25% e 26%. Pelo histórico brasileiro de eleições, ele precisa ter mais de 35% de ótimo ou bom se quiser vencer.
Mas o Lula tinha subido nas pesquisas no segundo semestre do ano passado com o discurso da soberania contra Donald Trump e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. O que está acontecendo agora para que pareça uma volta ao cenário do primeiro semestre de um presidente fragilizado?
Esses são fatos isolados, eventos de cobertura de mídia que, claro, balançaram a popularidade do Lula positivamente. É parecido com o exemplo do Barack Obama nos EUA. Quando o Osama Bin Laden foi capturado e morto, em 2011, a popularidade dele subiu nos Estados Unidos. Depois, caiu de novo. O ponto é que, passados quatro anos, o eleitor brasileiro continua achando que o governo não o atende, que não está fazendo diferença na sua vida. Falamos muito de queda da inflação nos últimos meses, mas há um elemento que talvez tenhamos que prestar mais atenção: a carestia. A verdade é que as coisas continuam muito caras para a população.
A repercussão ruim do desfile da Acadêmicos de Niterói com uma ala ironizando a “família em conserva” teve algum impacto?
Não acredito que uma ala de escola de samba faça as pessoas mudarem de ideia sobre o que pensam a respeito de um governo. Isso é uma afronta à inteligência do eleitor. Lula já é pior avaliado entre os evangélicos desde sempre, o desfile não alterou esse quadro. Com informações do portal O Globo.