Quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Como o presidente do Senado oscilou de líder da maior derrota do 3º governo Lula a aliado às vésperas da eleição

O  presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil) é apontado como um dos pais, no Congresso, do orçamento secreto — o mecanismo sem transparência na distribuição dos recursos e posteriormente alvo de investigações da Polícia Federal (PF). Segundo dados disponíveis no Painel do Orçamento e na Comissão Mista de Orçamento e Fiscalização do Congresso, o senador movimentou mais de R$ 1,2 bilhão em emendas para o Amapá, seu Estado, entre 2019 e 2026.

Todo esse poder no manejo de recursos públicos passou a ser analisado com lupa nos últimos anos por investigações da PF, o que incomodou demais o parlamentar. A interlocutores, Alcolumbre vê o avanço de apurações que miram aliados como uma perseguição política. Já reclamou mais de uma vez diretamente com a cúpula da corporação sobre supostos vazamentos à imprensa de operações.

No governo Lula, as apurações mudaram de patamar com o avanço das investigações envolvendo o Banco Master. Em fevereiro, a PF foi às ruas para apurar a suspeita de irregularidades na gestão de recursos da Previdência do Amapá por aplicações no banco de Daniel Vorcaro. Um dos alvos foi Jocildo Lemos, diretor da Amprev, tesoureiro da campanha de Alcolumbre em 2022 e indicado pelo próprio ao cargo.

O divisor de águas da irritação de Alcolumbre com as batidas policiais, no entanto, deu-se em março, quando descobriu que pessoas da sua confiança estavam sendo seguidas por agentes da PF. A polícia flagrou o seu segundo suplente, o empresário Breno Chaves Pinto, sacando R$ 350 mil em espécie numa investigação que apura fraude em licitações do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) no Amapá. O superintendente regional do órgão no estado é, mais uma vez, indicação do próprio Alcolumbre. Nos últimos anos, os cofres da autarquia foram turbinados a partir de emendas articuladas pelo presidente do Senado.

Derrota histórica

No primeiro semestre deste ano, Alcolumbre tratou o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como o tal oponente que teria instrumentalizado a polícia para intimidá-lo. O recado da insatisfação foi dado a partir do episódio do veto do Senado à indicação do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Na ocasião, Alcolumbre queria emplacar o colega Rodrigo Pacheco (PSB) na Corte, mas o petista o ignorou e insistiu na aposta em Messias, nome de confiança.

Em abril, durante convescote regado a vinho que reuniu um pequeno grupo de figurões do Judiciário e do Legislativo às vésperas da votação da indicação no Senado, Alcolumbre profetizou sobre o escolhido de Lula: “Vai ser histórico”, previu na reunião.

E foi mesmo — com direito a aviso prévio da derrota para o governo sendo levado ao vivo para todo o País. O adjetivo “histórico” para aquela noite se justifica. Desde 1894, no governo Floriano Peixoto, o Senado não derrotava uma indicação do governo para o STF.

Reaproximação

Após meses de afastamento, Lula e Alcolumbre se reuniram de novo na semana passada, em um encontro costurado pelo ministro do STF Alexandre de Moraes e que também contou com a presença de Cristiano Zanin. No final de julho, no Amapá, Alcolumbre já se mostrava mais aberto para um encontro.

O plano de reaproximar as duas autoridades começou a ser colocado de pé no evento no Palácio do Planalto que sancionou a lei que criou o “Pix pensão alimentícia”. Moraes foi convidado por Lula para um café — a frase foi captada pelo áudio da transmissão em vídeo da cerimônia. Ali, o ministro disse que era a hora de Lula e Alcolumbre conversarem. Indicou a data porque sabia exatamente quando o presidente do Senado estaria em Brasília. Ficou acertado que seria na casa do próprio Moraes.

Os primeiros momentos da conversa foram de lavação de roupa suja, com um dizendo ao outro coisas que haviam chateado ambos nos últimos meses. Coube a Moraes e Zanin mediar. A certa altura, trataram de amenidades. Lula contou da convenção que lançou seu nome à reeleição, em São Paulo, e Alcolumbre, dos dias que passou no Estado natal.

A um interlocutor, o presidente do Senado classificou como positiva a conversa e culpou auxiliares de Lula pelo clima ruim nos últimos meses, numa espécie de linha cruzada. Disse que, na hora do olho no olho, ele e o presidente sempre se entendem.

Alcolumbre encerrou a semana destravando a pauta do fim da escala 6×1 no Senado, agenda que Lula trata como prioritária para a campanha presidencial contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). A PEC da Segurança, outro importante assunto para o PT, também vai andar na Casa. (Com informações do jornal O Globo)

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