Segunda-feira, 08 de junho de 2026

Corrida eleitoral: foco de disputa entre Lula e Flávio, o Senado tem recorde de trocas de partidos e vira terreno instável para o governo

O Senado  vive um período de intensa reorganização política às vésperas das eleições de 2026. Levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), aponta que a Casa registrou 86 trocas de partido entre fevereiro de 2019 e abril de 2026, o maior número desde o início da série histórica, em 1991. Apenas na atual Legislatura foram contabilizadas 37 mudanças de legenda.

Os dados mostram que a movimentação partidária atinge parlamentares da base governista e da oposição. Nas duas últimas Legislaturas, a média foi de 11 senadores mudando de partido por ano, índice superior ao observado em ciclos anteriores e que reforça uma tendência de maior volatilidade política em uma Casa tradicionalmente considerada mais estável do que a Câmara dos Deputados.

O cenário tem preocupado o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrenta dificuldades para consolidar uma maioria sólida no Senado. A instabilidade ficou evidente em derrotas recentes do Palácio do Planalto, como a rejeição da indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). A articulação contrária contou com a participação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP).

Outra derrota relevante foi a aprovação, pelo Congresso, da lei que reduz penas dos envolvidos nos atos golpistas e beneficia o ex-presidente Jair Bolsonaro. Um veto posterior de Lula acabou derrubado pelos parlamentares. Ainda no início do atual mandato presidencial, o Senado também rejeitou a indicação de Igor Roque para a chefia da Defensoria Pública da União (DPU).

Diante desse cenário, a oposição passou a tratar o Senado como prioridade estratégica para 2026. O ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo em prisão domiciliar, participa da articulação de candidaturas ao Senado em diversos estados. A Casa é considerada peça-chave pelo bolsonarismo, principalmente por ser responsável pela análise de pedidos de impeachment contra ministros do STF.

A intensificação das mudanças partidárias ocorreu de forma gradual. Entre 2011 e 2015 foram registradas apenas oito trocas de legenda. Nos quatro anos seguintes, ocorreram outras 35. Já entre 2019 e 2026, o número chegou a 86 migrações.

Especialistas apontam que os senadores costumam buscar partidos com maior presença nos estados, melhor acesso a recursos eleitorais e maior alinhamento com projetos políticos nacionais. Como são eleitos pelo sistema majoritário e possuem mandatos de oito anos, os parlamentares têm maior autonomia em relação às siglas.

O senador Carlos Viana (PSD-MG), por exemplo, passou por seis partidos desde que chegou ao Senado, em 2019. “Mudei por coerência com meu eleitor. Sempre fui do campo de centro-direita e era impossível permanecer em partidos que apoiaram candidaturas da esquerda”, afirmou.

Outros casos chamam atenção, como os dos senadores Styvenson Valentim (Podemos-RN), que alternou entre Rede, Podemos e PSDB antes de retornar ao Podemos, e Jorge Kajuru (PSB-GO), que já passou por quatro legendas desde o início do mandato.

Para Murilo Medeiros, a fidelidade partidária perdeu força no sistema político brasileiro. “As identidades partidárias são cada vez mais fracas, e a migração já está normalizada no sistema político, sem necessariamente gerar punição eleitoral”, avaliou.

O debate sobre o tema também chegou ao STF. A Corte analisa uma ação que pode ampliar a regra da fidelidade partidária para cargos majoritários, como presidente da República, governadores, prefeitos e senadores. Atualmente, a exigência é aplicada de forma mais rígida aos cargos eleitos pelo sistema proporcional.

O julgamento foi retirado da pauta e ainda não tem data definida para retomada. Enquanto isso, senadores continuam podendo mudar de partido sem risco de perder o mandato, o que contribui para manter o cenário de intensa movimentação política na Casa.

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