Sábado, 11 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 11 de julho de 2026
Os alertas de desmatamento da floresta amazônica no primeiro semestre deste ano chegaram ao menor patamar em uma década. Entre janeiro e junho foram perdidos 1.295 km² de vegetação nativa no bioma, o índice mais baixo da série histórica do sistema Deter, do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial), iniciada em 2016.
No cerrado, a área sob alerta para desmate foi de 3.142 km² nos primeiros seis meses do ano, a mais baixa desde 2021. O número representa queda de 6% na comparação com o mesmo período de 2025 —na Amazônia, a redução foi de 38%.
Os dados foram divulgados na sexta-feira (10). O Deter emite alertas de desmate para orientar ações de fiscalização. Já os números oficiais são de outro sistema do instituto, o Prodes, mais preciso e divulgado anualmente.
Os biomas são os maiores do país e representam, juntos, três quartos do território nacional (49% concentrado na Amazônia e 24%, no cerrado). A área de vegetação sob alerta de desmate em ambas as regiões neste ano chega a 4.437 km², equivalente a quase três vezes a da cidade de São Paulo.
Considerando apenas o mês de junho, a Amazônia perdeu 297 km² e o cerrado, 482 km², o que representa, respectivamente, uma redução de 35% e 5% na comparação com 2025.
O ministro do Meio Ambiente e Mudança Climática, João Paulo Capobianco, ressalta que, em ambos os casos, os índices deste ano seguem uma tendência de queda no desmate.
“Os números estão mostrando que esse processo de redução está sendo cumulativo, redução sobre redução. Então, estamos numa trajetória positiva, tanto na Amazônia como no cerrado”, afirma.
Para Tasso Azevedo, coordenador-geral da plataforma MapBiomas, que monitora desmatamento e outras mudanças no uso da terra, a redução na destruição da vegetação nativa nos últimos anos se deve à retomada de políticas governamentais, como os planos de controle do desmate, recomposição de quadros e orçamento de órgãos de fiscalização, e restrições financeiras a desmatadores, entre outros fatores.
“A impunidade começou a diminuir. Em 2019, apenas cerca de 5% da área desmatada tinha algum tipo de ação de responsabilização ou controle. Em 2025, esse percentual já se aproximava de 65%, segundo o MapBiomas”, explica.
Apesar disso, lembra que os índices, na casa de milhares de hectares neste ano, ainda são altos. “O Brasil continua sendo um dos países que mais desmatam no mundo em termos absolutos”, diz Azevedo.
“O desafio agora é transformar essa redução em tendência estrutural. Chegar a 2030 com o desmatamento em nível residual —algo abaixo de 100 mil hectares [1.000 km²] por ano no país— já seria uma enorme vitória e muito próximo do espírito da meta de desmatamento zero.”
Em ambas as regiões, o início do ano tem taxas mais baixas de desmate devido à estação chuvosa, que dificulta a derrubada, e também à maior presença de nuvens, que pode prejudicar a obtenção de imagens de satélite.
O pico do desmate normalmente acontece entre maio e setembro, quando a precipitação diminui.
Devido a essa dinâmica sazonal, o Inpe considera, para fins de monitoramento, o período de 12 meses que vai de agosto de um ano a julho do ano seguinte.
Segundo essa métrica, desde agosto de 2025, a área sob alerta de desmate na Amazônia é de 2.486 km², redução de 37% em relação ao período anterior (3.960 km²). No cerrado, a taxa é de 4.689 km², o que representa queda de 8% na comparação com o intervalo de agosto de 2024 a junho de 2025.
Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa, com foco em políticas climáticas, afirma que os resultados alcançados desde 2022 evidenciam que “redução do desmatamento é decisão política”, o que se reflete numa boa imagem do país no exterior.
“O mundo aprendeu a ‘ler’ o Brasil a partir do desmatamento. Cada ponto de queda transforma o país de problema em solução, um ativo que nenhum outro membro do G20 tem”, avalia.
Capobianco —que era o braço direito de Marina Silva e assumiu a pasta quando ela deixou o cargo para ser candidata nas eleições deste ano— diz que os resultados atuais foram alcançados a partir de uma ação constante nos três níveis de governo, federal, estadual e municipal.
“É um resultado do Estado brasileiro: são várias políticas, de vários órgãos, de diferentes instâncias federativas que estão operando”, ressalta, acrescentando que esse modelo de construção de política pública a torna mais resiliente a eventuais mudanças de governantes.
“Estão sendo construídos instrumentos que dão uma condição de políticas mais estruturantes e que apontam para uma perspectiva de continuidade mais interessante, independente de quem estaria, digamos, na chefia ou na coordenação disso”, afirma o ambientalista. Com informações da Folha de S. Paulo.