Sábado, 09 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de maio de 2026
Celebrado sempre no segundo domingo de maio, o Dia das Mães costuma ser marcado por homenagens, cartões, flores, presentes e declarações. Por trás da celebração, no entanto, há uma realidade silenciosa e cada vez mais comum: filhos que passam a cuidar de suas mães, devido ao envelhecimento, doenças ou desejo de retribuir a dedicação. Trata-se de um gesto de amor e que, embora profundo, muitas vezes acaba cobrando alto preço à saúde mental.
Que o diga a jornalista Waleria de Carvalho, que assina esta reportagem: “A minha tem 82 anos e, recentemente, levou seis tombos. Eu então me mudei para o prédio dela, no mesmo andar, transformando minha vida e a de meu marido, que ajuda muito. É maravilhoso poder retribuir todo o amor e cuidado de dona Luci ao longo de minha vida, mas confesso que às vezes tenho vontade de sair correndo, exausta de tanta demanda”.
Ela prossegue: “Como não tive filhos, a dificuldade de cuidar é ainda maior. Minha mãe está com a mobiidade reduzida e eu vejo que envelhecer não é nada fácil, nem para ela e nem para mim, que tenho 58 anos. Mas é o amor que nos une que me faz querer estar sempre ao lado dela”.
O alerta se insere em um cenário mais amplo de adoecimento emocional no País. Dados da Previdência Social e da Associação Nacional de Medicina de Trabalho (Anamt) mostram que 2025 e 2026 registraram recordes de afastamentos por transtornos mentais, com aumento expressivo de casos de burnout, reflexo direto da pressão emocional vivida por milhões de brasileiros, incluindo cuidadores.
Para a psiquiatra Jessica Martani, esse contexto ajuda a explicar por que tantos cuidadores estão no limite. “O cuidado contínuo, especialmente dentro da família, pode levar a um estado de vulnerabilidade crônica. É muito comum observarmos exaustão física, ansiedade persistente, sintomas depressivos e uma sensação de vida suspensa. A pessoa deixa de existir como indivíduo e passa a viver apenas em função do outro”, pontua.
Ela acrescenta que o sofrimento costuma ser agravado pela culpa: “Muitos cuidadores sentem vergonha de admitir que estão cansados. Existe a crença de que amar é suportar tudo, quando, na verdade, o excesso de sobrecarga pode adoecer profundamente”.
Inversão de papéis
A terapeuta Glaucia Santana, do Espaço HI, reforça que a inversão de papéis dentro da família transforma a dinâmica emocional da casa: “O filho deixa de ser filho e passa a ser gestor da rotina, da saúde e, muitas vezes, do emocional da mãe. Isso gera ressentimento, sobrecarga e conflitos silenciosos”.
Foi exatamente essa vivência que levou a escritora e psicanalista Fabiana Milanez a transformar dor em literatura. No livro “A Última Viagem”, a autora narra o impacto emocional de cuidar de uma mãe com câncer avançado.
“Foi o momento mais difícil de minha vida e que me atravessou por inteiro. Havia amor, medo, culpa e um desejo silencioso de também voltar à minha própria vida. Escrever foi a forma que encontrei de não me perder de mim”.
Contexto jurídico
No campo jurídico, a advogada Silvana Campos aponta que, embora o tema ainda avance lentamente, existem direitos e lacunas importantes quando se fala em cuidado:
“O Brasil ainda não possui uma legislação específica e robusta de proteção integral ao cuidador familiar informal, embora haja garantias pontuais, como benefícios assistenciais, possibilidade de afastamento em alguns casos e políticas públicas ainda insuficientes. Isso indica uma necessidade urgente de leis que reconheçam o cuidador como agente essencial de saúde, garantindo suporte financeiro, psicológico e até previdenciário”.
Escolhas conscientes
A psicóloga e empresária Zora Viana, fundadora da Faculdade Fex Educação, também viveu o impacto da maternidade na carreira e na saúde mental: “Quando me tornei mãe, percebi que precisava reconstruir a minha forma de trabalhar. Eu criei um modelo de negócio que me permitisse estar presente. A maternidade me ensinou que é possível alinhar carreira e vida, mas isso exige escolhas conscientes e, muitas vezes, difíceis”.
Mesmo quando a mãe não é solo, conciliar maternidade casamento, carreira e estudo não é fácil. Assistente jurídica de um escritório, administração de locações de imóveis e sou estagiária da Defensoria Pública, no Núcleo de Família, Emanuelle Nunes é mãe de Filipe, Catarina e Bento e a rotina é puxada, acordando às 5h para fazer sua caminhada até as 6h, quando volta para acordar um dos filhos. “O dia precisa ser percorrido com muita rotina e programação semanal”. (com informações do jornal “O Dia”)