Terça-feira, 18 de junho de 2024

Disputas pelo tráfico de drogas na fronteira entre Brasil e Paraguai já causaram 160 mortes neste ano

Ao menos 160 pessoas já perderam a vida, desde janeiro, em conflitos relacionados ao tráfico de drogas na fronteira entre Brasil e Paraguai. Desse contingente, 74 mortes mortes foram registradas no lado de cá, conforme estatística da Polícia Civil. A guerra começou em 2016, quando a facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) passou a controlar esse tipo de crime na região.

Um dos capítulos mais recentes desse conflito foi registrado no último sábado (9), com a execução de quatro indivíduos na cidade de Pedro Juan Caballero, separada de Ponta Porã (MS) por apenas uma rua. Outras três pessoas foram baleadas, mas sobreviveram.

As vítimas foram duas estudantes brasileiras de Medicina, Karine Reinoso de Oliveira, de 21 anos, e Rhannye Jamilly Borges de Oliveira, de 19. Também morreu ainda a paraguaia Haylle Carolina Acevedo Yunis, 21 anos, sobrinha do governador do Estado de Amambay, Ronald Acevedo, e do prefeito local, José Carlos Acevedo, reeleito pela quarta vez seguida neste fim de semana.

Segundo autoridades locais, o alvo era Osmar Vicente Alvarez Grance, 29 anos, supostamente ligado ao narcotráfico. Ele recebeu grande parte dos tiros, a maioria na cabeça. A sobrinha do governador era sua namorada. Ela e as colegas brasileiras cursavam Medicina na Universidade Central do Paraguai, em Pedro Juan Caballero.

Foram disparados mais de 100 tiros de pistola e fuzil. Imagens de uma câmera mostram quando três homens descem de uma caminhonete e descarregam as armas contra o grupo, que entrava em uma caminhonete Blazer branca após sair de uma festa. O veículo tinha placa brasileira e havia sido roubado em Navegantes (SC).

Osmar foi atingido antes de assumir o volante do carro. Depois que estava caído, um dos atiradores se aproximou e descarregou a arma contra sua cabeça. O ataque aconteceu no bairro General Diaz, a cinco quadras da linha de fronteira.

No domingo (10), uma caminhonete semelhante à Toyota Hillux utilizada pelos atiradores foi encontrada em chamas, numa estrada vicinal, a dez quilômetros de Pedro Juan. O carro tinha placas de Bauru (SP) e também constava como roubado.

Já na manhã seguinte, seis brasileiros foram presos pela polícia do Paraguai na cidade de Cerro Corá, pertencente ao mesmo departamento, por suspeita de participação na chacina. Eles não tinham armas mas os celulares foram apreendidos. Seus nomes não foram divulgados.

Vereador

Também no sábado, a brasileira Ponta Porã foi palco de outra execução a tiros, tendo como vítima o vereador Farid Charbell Badaoul Afif (DEM), 37 anos. Mas a polícia não vê relação entre os dois casos.

Já a execução das brasileiras em Pedro Juan Caballero tem a ver com o tráfico de drogas, segundo ele. A região vive um clima de disputa entre as facções criminosas pelo controle do tráfico, principalmente da maconha produzida na própria região e da cocaína da Bolívia.

Conforme o secretário, as polícias estadual e federal brasileiras monitoram as quadrilhas e intensificaram as operações conjuntas contra o tráfico. De janeiro a julho, 460 toneladas de drogas foram apreendidas após cruzar a fronteira. As apreensões acabam gerando conflitos entre as quadrilhas e, às vezes, em execuções.

A polícia paraguaia acredita que o ataque em Pedro Juan foi ordenado pelo PCC, a facção paulista que se infiltrou no país vizinho para controlar as rotas de envio de drogas e armas para as organizações criminosas brasileiras e do exterior.

Conhecido como “Bebeto”, Osmar Grance era o dono de uma lavanderia onde 13 membros da facção foram presos, em março deste ano, durante uma assembleia da facção. Há suspeita de que o empresário tenha facilitado a ação da polícia.

Justiceiros

Nos últimos meses, as ações de esquadrões da morte que se intitulam “justiceiros da fronteira” contribuíram para inflar as estatísticas de homicídios na região. As vítimas, em sua maioria envolvidas em furtos e roubos, foram executadas com crueldade e, em vários casos, acabaram degoladas, mutiladas ou esquartejadas.

Os criminosos deixaram bilhetes ao lado do corpo, com “não roubar na fronteira” e “morte aos ladrões”. Estima-se que, desde o ano passado, ao menos 60 pessoas foram executadas pelos chamados justiceiros. No dia 5, foi preso Anderson Meneses de Paula, o “Tuca”, integrante do PCC no Paraguai e suspeito de comandar as execuções.

A motivação dessas ações seria dar “tranquilidade” para os traficantes continuarem seu “trabalho”, pois os roubos acabam atraindo com mais frequência a presença da polícia nas ruas. A imprensa da região também já entrou na mira do narcotráfico. No ano passado, o jornalista Lourenço Veras, 52 anos, foi executado em casa quando jantava com a mulher e os dois filhos – ele cobrava ações contra o tráfico na região.

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