Quarta-feira, 19 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 18 de agosto de 2026
Um estudo realizado no Hospital Nossa Senhora da Conceição, em Porto Alegre, revela que indivíduos declararamente heterossexuais abrangem 84% dos pacientes que descobrem terem o vírus HIV quando a infecção (Aids) já se encontra em estágio avançado. Conduzido em parceria com a Universidade da Califórnia (UCLA), a pesquisa tem seus resultados em artigo na revista científica internacional “Aids Research and Treatment”.
O levantamento considera a análise de 1.615 pacientes que receberam atendimento em estado grave de saúde relacionado ao HIV entre 2015 e 2024. Do total, 407 (25%) descobriram ser portadores do vírus apenas durante essa mesma hospitalização.
Dentre os recém-diagnosticados, 49% eram homens que se identificavam como heterossexuais, a maioria deles empregados, casados ou em união estável e com filhos; 35% eram mulheres heterossexuais, também com filhos. Apenas 10% pertenciam a minorias sexuais ou de gênero, parcelas da população tradicionalmente mais visadas em ações preventivas e de rastreio do HIV.
Além disso, 24% dos pacientes apresentavam algum dos fatores de risco comumente usados para orientar a testagem, como uso de crack ou cocaína, de drogas injetáveis, situação de rua, histórico de encarceramento ou trabalho sexual. Ou seja, os outros 76% não tinham nenhum desses fatores documentados.
As causas mais comuns de internação foram tuberculose, pneumonia por um fungo oportunista (pneumocistose), toxoplasmose cerebral e pneumonia bacteriana. Ou seja: infecções que se instalam quando o organismo já não consegue mais se defender.
O estudo sugere que a lógica das políticas de testagem, embora importante, não é suficiente. Isso porque priorizam grupos considerados de risco, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans, usuários de drogas e profissionais do sexo.
Para os autores do estudo, a diversidade de perfis encontrada entre os pacientes que chegaram ao hospital em estágio avançado mostra que depender da triagem por grupo de risco pode deixar de fora uma parte significativa das pessoas com HIV. A constatação reforça a necessidade de ampliar a testagem.
A pesquisa foi conduzida por pesquisadores da Escola de Medicina David Geffen da Universidade da Califórnia (UCLA, na sigla em inglês), dos Estados Unidos, em parceria com a equipe do Hospital Nossa Senhora da Conceição, contando com financiamento do Instituto Nacional de Saúde Mental (National Institute of Mental Health), também dos Estados Unidos.
Por se tratar de estudo realizado em um único hospital, os pesquisadores fazem a ressalta de que os resultados podem refletir casos mais graves e não necessariamente o que ocorre em postos de saúde ou na comunidade. Além disso, como os dados têm origem em prontuários e fichas de triagem, informações sensíveis como uso de drogas, orientação sexual ou situação de rua podem estar subnotificadas, já que dependem do quanto o paciente se sentiu à vontade para compartilhá-las.
Recomendações
A partir das conclusões da pesquisa, os autores defendem a ampliação de estratégias de testagem que não dependam de o paciente se encaixar em um perfil de risco:
– Testagem de rotina do tipo “opt-out” em serviços de saúde em geral, ou seja, o teste de HIV passa a ser oferecido a todos e a pessoa pode recusar, em vez de precisar pedir.
– Testagem baseada em sintomas (indicador): oferece o exame quando o paciente apresenta quadros compatíveis com infecções oportunistas.
– Autoteste e testagem em farmácias: ampliando o acesso fora do ambiente hospitalar tradicional.
(Marcello Campos)