Sexta-feira, 22 de maio de 2026

Empresa não é ecossistema

É recorrente no meio corporativo a ressignificação de termos a fim de se promover uma melhor percepção emocional de imagem, como no caso de ecossistema. Ecossistema é um termo técnico que designa um sistema de organismos vivos interdependentes e elementos físicos e químicos com os quais eles interagem e mantêm um equilíbrio dinâmico em ciclos biogeoquímicos.

À primeira vista, até pode parecer adaptável este conceito ao meio empresarial, mas há elementos essenciais (ontológicos) que tornam seu emprego inadequado. Um ambiente empresarial é um domínio social-artificial, caracterizado por manipulações e centralizações intencionais de controle institucionalmente mediadas com fim majoritariamente econômico.

Um ecossistema, ao contrário, é um domínio natural de autoorganização caracterizado pela relativa autonomia relacional dos agentes, cuja finalidade é a autopreservação. É verdade que a linguagem é dinâmica, adaptativa e permite a transposição de termos de um domínio para outro. O problema reside nas intenções subliminares inerentes ao emprego de figuras de linguagem, como metáforas e eufemismos, por parte de empresas e elites corporativas que contaminam o uso do termo para criar uma narrativa alinhada com uma chamada modernidade discursiva.

Palavras não são neutras, expressam significado e conhecimento. A intenção é difundir a falsa ideia de que um grupo de empresas funciona organicamente, espontaneamente, quase naturalmente, quando, na verdade, funciona intencionalmente por direcionamento verticalizado. Frequentemente com alta concentração de poder, dependência assimétrica e relações abusivas e espoliadoras disfarçadas de colaboração.

A metáfora ecológica suaviza isso. O uso do termo ecossistema busca passar uma imagem de modernidade e sofisticação em um discurso com estética pretensamente inclusiva e contemporânea. Empresa, cadeia produtiva e/ou logística, ”cluster”, ”hub” e plataforma não poderiam ser associados a ecossistema porque isso reduz a precisão semântica e, portanto, causa perda de conhecimento e confusão.

Tornar construções humanas em “fenômenos naturais” despersonaliza e, principalmente, desresponsabiliza, justificando demissões como reestruturação, subordinação como cultura organizacional, discriminação como “fit” cultural, dentre outros eufemismos, e pretende produzir um discurso moralmente aceitável. A linguagem é o alicerce do nosso desenvolvimento. Não é possível pensar sem linguagem. A linguagem não somente descreve o mundo, ela viabiliza, induz e delineia a nossa percepção de realidade.

Não podemos subestimar a linguagem, muito menos fazer uso escuso dela. Não prego preciosismo lexical, mas defendo criticismo sobre a aceitação de termos que disseminam falso conteúdo, buscam iludir, tornar palatável o indigesto, naturalizar o nefasto. Chamar empresa de ecossistema é o mesmo que tentar fazer pirita se tornar ouro, nem a alquimia conseguiu.

Você acha que empresa é ecossistema?

* Jaime Nazário, executivo do setor automotivo

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