Quinta-feira, 03 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 3 de setembro de 2026
Existe uma reação curiosa quando alguém descobre que um texto, uma imagem ou um vídeo foi produzido com ajuda de inteligência artificial.
Às vezes, a percepção muda na mesma hora.
O texto estava interessante. A imagem funcionava. O vídeo prendia a atenção. Mas basta aparecer a informação de que houve IA no processo para surgir uma desconfiança que, até alguns segundos antes, não existia.
Como se a ferramenta utilizada diminuísse automaticamente o valor do resultado.
Há décadas convivemos com conteúdos que passam por algum tipo de transformação tecnológica antes de chegar até nós.
Fotografias são tratadas. Filmes passam por edição e pós-produção. A voz de cantores e locutores é ajustada. Revistas melhoram luz, pele e enquadramento. Na televisão, imagem, som, cenário e iluminação são trabalhados para produzir determinada percepção.
Nada disso nos parece especialmente estranho.
Muitas vezes encontramos pessoalmente alguém que conhecíamos apenas da televisão, da internet ou do rádio e percebemos diferenças. A voz parece outra. A aparência muda. A pessoa é diferente daquela imagem que havíamos construído.
E seguimos a vida.
Já aceitamos que existe uma camada de tecnologia entre a realidade e boa parte do conteúdo que consumimos.
Com a inteligência artificial, porém, o julgamento parece diferente.
Quando descobrimos que ela participou da produção, a pergunta deixa de ser apenas “isso é bom?” e passa a ser “isso foi realmente feito por uma pessoa?”.
Talvez exista aí uma desconfiança natural diante de uma tecnologia nova. Ainda associamos criação a um processo essencialmente humano. Se uma máquina participou, aparece a sensação de que aquilo seria menos legítimo, menos autêntico ou menos valioso.
Mas existe outra explicação que, para mim, pesa ainda mais.
Muito conteúdo produzido com inteligência artificial é ruim.
É genérico, previsível e repetitivo. Usa palavras corretas para dizer muito pouco. Parece bem escrito, mas não deixa nenhuma ideia depois.
Falta experiência. Falta opinião. Falta repertório. Falta contradição. Falta alguém por trás do texto.
Nesse caso, talvez a rejeição não seja exatamente à inteligência artificial.
Talvez seja ao conteúdo ruim que aprendemos a associar a ela.
A IA derrubou drasticamente o custo de produzir. Hoje uma pessoa consegue gerar em poucos minutos aquilo que antes exigiria horas de trabalho. Pode criar dez artigos, cinquenta posts, dezenas de imagens ou uma apresentação inteira.
Mas produzir mais nunca foi sinônimo de ter mais coisas importantes para dizer.
Durante muito tempo, parte do valor estava na capacidade de produzir. Escrever bem, montar uma apresentação, editar uma imagem ou transformar uma ideia em comunicação exigia tempo e domínio técnico.
Agora uma parte dessa execução ficou muito mais acessível.
O que não ficou mais fácil é ter uma boa ideia.
Não ficou mais fácil ter vivido algo que vale a pena contar. Construir uma opinião. Perceber uma contradição. Fazer uma pergunta incômoda. Conectar experiências diferentes e chegar a uma conclusão própria.
A IA pode organizar um raciocínio confuso, mostrar um argumento fraco, sugerir uma estrutura melhor, revisar um texto ou confrontar uma hipótese.
Isso me parece muito mais interessante do que simplesmente apertar um botão e pedir: “escreva um artigo sobre inteligência artificial”.
Existe uma diferença enorme entre terceirizar a produção e terceirizar o pensamento.
A primeira já está acontecendo.
A segunda é o risco.
A planilha mudou o trabalho do contador. O software de edição mudou a fotografia. O computador transformou a arquitetura. O GPS mudou a forma como dirigimos.
As ferramentas alteraram a execução, mas não eliminaram a necessidade de julgamento de quem as utiliza.
Com a inteligência artificial, provavelmente acontecerá algo parecido.
Gerar conteúdo deixará de ser um diferencial. Todo mundo terá acesso a ferramentas capazes de escrever, desenhar, editar, resumir e produzir em uma velocidade que hoje ainda nos impressiona.
Se produzir ficar barato, aquilo que não pode ser obtido apenas apertando um botão tende a ganhar valor.
Repertório. Experiência. Critério. Senso crítico.
E, principalmente, uma visão própria sobre o mundo.
Por isso, talvez a discussão sobre autoria precise amadurecer.
Não me parece suficiente perguntar se houve ou não inteligência artificial na produção. Quero saber quem escolheu a tese. Quem decidiu o que entraria e o que ficaria de fora. Quem verificou a informação. Quem assumiria aquela opinião mesmo sem uma máquina para formulá-la.
É aí que, para mim, continua existindo autoria.
A ferramenta pode participar da construção. O pensamento não pode estar ausente.
Talvez estejamos entrando numa época em que produzir será cada vez mais barato e ter algo relevante para dizer continuará sendo caro.
Se isso acontecer, a abundância de conteúdo não diminuirá a importância das boas ideias.
Vai aumentá-la.
E talvez a pergunta mais importante deixe de ser “isso foi feito com inteligência artificial?”.
Passará a ser outra:
“Isso merece a minha atenção?”
Este texto foi feito com inteligência artificial.
A opinião, não.

* Felipe Barão – especialista em jornada do usuário, máquinas de vendas e aplicação de inteligência artificial em negócios. Membro do Grupo Front, fundador da Growth System e do Founders Club.