Domingo, 31 de maio de 2026

Ex-oficial de chancelaria, Flávia Medeiros, de 29 anos, foi exonerada do Ministério das Relações Exteriores

A ex-oficial de chancelaria Flávia Medeiros, de 29 anos, exonerada pelo Itamaraty na última semana, havia sido recém-eleita para compor o Comitê Étnico-Racial no Ministério das Relações Exteriores. A ex-servidora teve seu nome chancelado pelos colegas para integrar o colegiado consultivo.

O caso de Flávia Medeiros ganhou notoriedade na última semana após ser exonerada do cargo. Ela tinha sido desclassificada no exame para cotas do concurso público de 2023, mas recorreu à justiça para tomar posse. Seu recurso judicial acabou sendo rejeitado e Flávia perdeu o emprego público.

O Comitê Étnico-Racial tem caráter consultivo e faz parte do Sistema de Promoção de Diversidade e Inclusão, no Itamaraty, criado em 2023. Também há outros três específicos sobre Gênero, Pessoas com Deficiência e Pessoas LGBTQIA+.

Segundo o MRE, esses colegiados possuem a “finalidade de propor e acompanhar iniciativas relacionadas aos temas de diversidade e inclusão no âmbito do ministério, sendo coordenado e dirigido pela Comissão de Promoção de Diversidade e Inclusão”.

Boletim interno que mostra o resultado da eleição no MRE e a composição do comitê. Segundo ela, houve uma chapa única de candidatos. Os membros eleitos exercem a função, em caráter pessoal, por dois anos (2026-2028).

A então servidora, formada em Relações Internacionais, trabalhava na Divisão de Imigração, da Secretaria de Comunidades Brasileiras e Assuntos Consulares e Jurídicos.

Flávia Henriques Goes de Medeiros foi eleita como secretária-executiva adjunta titular. A chapa é composta ainda por João Lucas Rocha Alves, coordenador titular, e Laís Cristina Leite Maia, secretária-executiva titular. Cada cargo também possui um membro suplente.

O coordenador disse não ter aval para se manifestar sobre o caso de Flávia Medeiros. Eles ainda não se reuniram para tratar do episódio. Mas consideram discutir o funcionamento da comissão de heteroidentificação dos concursos.

O comitê apenas emite opiniões, que podem ou não ser adotadas pela administração. Entre as atividades, estão elaborar propostas de políticas, estratégias e planos de ação para promoção de diversidade e inclusão no MRE; propor e incentivar a realização de ações, campanhas e atividades de capacitação dos servidores para a promoção de diversidade e inclusão no ambiente de trabalho; acompanhar a implementação de medidas adotadas e avaliar a situação de diversidade e de inclusão, por meio da elaboração de relatório anual.

O comitê não quis se pronunciar sobre o caso. Reportagem do jornal O Estado de S. Paulo apurou que o assunto já foi debatido internamente e que eles procuraram dar apoio emocional à ex-servidora. Mas não se pronunciaram oficialmente, em parte, pelo momento de transição. Ela também recebeu suporte jurídico do Sinditamaraty e, recentemente, uma carta de apoio da Educafro.

Até agora, mesmo diante da repercussão, o Itamaraty ainda não se posicionou publicamente sobre o caso de Flávia Medeiros. Ela foi desconsiderada como parda pela comissão de heteroidentificação do Cebraspe.

A ausência de manifestações é justificada por diplomatas pelo fato de o caso de Flávia Medeiros ainda estar pendente de decisão judicial.

Banca “purista”

Integrantes da diplomacia citam que o caso causou consternação e que Flávia pode ter sido avaliada por uma banca “purista”. Para diplomatas acostumados a participar da avaliação racial em concursos da carreira, ela cumpre os requisitos para ser enquadrada como parda nas cotas, segundo as práticas do MRE.

Esses diplomatas que integram bancas dizem que o ministério costuma ser alvo de críticas de uma ala do movimento negro, acusado de adotar julgamentos mais abrangentes nas comissões e conceder cotas a pardos em vez de apenas pessoas negras de pele retinta (mais escura).

“Flávia Medeiros não é apenas uma candidata. Ela é o símbolo de milhares de brasileiras e brasileiros que chegam até os altos postos da administração pública com muito sacrifício, sem berço de ouro, apenas com estudo, dedicação e fé. Permitir que ela seja varrida de um cargo tão almejado e tão merecido, por conta de uma avaliação fenotípica subjetiva que contrariou sua autodeclaração e sua trajetória, é permitir que a política de cotas raciais seja esvaziada na prática — mesmo onde existe no papel”, disse a Educafro. “A legalidade precisa ser restaurada. Flávia precisa ser reintegrada. E o Brasil precisa honrar o compromisso com as políticas afirmativas que tanto custaram para ser conquistadas.” (As informações são de O Estado de S. Paulo)

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