Domingo, 31 de maio de 2026

Crime organizado e terrorismo: militares brasileiros criticam decisão dos Estados Unidos

Pouco mais de 12 horas já se haviam passado do anúncio do governo de Donald Trump classificando o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas quando o coronel Paulo Filho, do Centro de Estudos Estratégicos do Exército, lembrou em sua conta no X um episódio que ajuda a compreender o espírito e a reação dos militares brasileiros à decisão de Washington.

Trata-se de um episódio da guerra entre os imperiais e os farrapos, quando o caudilho argentino Juan Manuel de Rosas ofereceu suas tropas aos republicanos de Davi Canabarro, líder farrapo. “Diga ao seu chefe que o primeiro de vossos soldados que transpuser a fronteira fornecerá o sangue com que assinaremos a paz com os imperiais. Acima de nosso amor à República está nosso brio de brasileiros.”

Cautela e preocupação

A polarização que toma conta da política brasileira não chegou aos extremos da Revolução Farroupilha. “Canabarro entendia perfeitamente que os problemas dos brasileiros deveriam ser solucionados pelos próprios brasileiros, sem interferência estrangeira”, escreveu o coronel. Reportagem do Estadão ouviu Paulo Filho, bem como 15 oficiais generais, com a pergunta: “O que o sr. achou da decisão americana sobre o PCC e o CV do ponto de vista de nosso País?”

O resultado foi um cenário em que a maioria consultada (12) criticou a decisão unilateral americana, mas a atribuiu, sobretudo, ao fracasso do País em lidar com a criminalidade organizada. Também foi citado o oportunismo eleitoral e sobraram críticas à família Bolsonaro. A maioria (11) considerou haver riscos à soberania do País, mas ressaltou (10) ser baixa a probabilidade de ação militar dos EUA em território brasileiro sem coordenação com Brasília.

Ao mesmo tempo, a maior parte (10) discorda da classificação das facções como terroristas, com o argumento de que são fenômenos diversos. Alguns (5), porém, salientaram o medo e a coerção usados por CV e PCC em comunidades carentes, especialmente no Rio, aproximando-as dos métodos do terror.

Há uma propensão maior entre almirantes do que entre generais e brigadeiros de considerar aspectos positivos da decisão americana, como o reforço ao combate à lavagem de dinheiro da criminalidade, fato que pode ser explicado pela forte ligação da Força Naval com o Rio.

Por fim, a maioria (12) crê ser possível ao País extrair ensinamentos do episódio e aproveitar a oportunidade, deixando as disputas eleitorais de lado, para criar consenso em torno de políticas eficazes de enfrentamento ao crime, recuperando os territórios em poder das facções.

Críticas ao clã Bolsonaro

Oficialmente, nenhuma das Forças se manifestou sobre a decisão americana por se tratar de “tema de governo”. Entre os entrevistados, três deles – um almirante e dois generais – criticaram o papel da família Bolsonaro no caso, qualificando como um desserviço ao País, e apontaram oportunismo político do governo Trump e dos políticos brasileiros. Um almirante, no entanto, afirmou que a medida “passa uma mensagem favorável a um candidato à Presidência (Flávio Bolsonaro)”.

Outro almirante lembrou que Trump usa um “artifício político” para enfrentar o consumo de drogas nos EUA, bem como busca retomar a ascendência dos EUA na América Latina de forma mais cômoda e rápida do que seria uma política que promovesse o desenvolvimento na região. Ou seja, a medida atende a interesses americanos.

Dois almirantes disseram acreditar que a saída para o Brasil será buscar mais cooperação na área de segurança, ainda que existam divergências jurídicas sobre a classificação de terrorismo. O momento seria de deixar os preconceitos ideológicos de lado. Eles também consideraram improvável uma ação militar americana no Brasil. Mas alertaram ser mais fácil atacar um País incapaz de se proteger.

Generais pessimistas

Entre os generais, um realçou a incerteza do futuro em razão da personalidade de Trump e de seu entorno e frisou que, em relação ao combate ao fluxo de dinheiro do crime, a medida pode ser positiva por permitir o bloqueio de ativos das facções.

A maioria de seus colegas, porém, fez uma análise mais pessimista, qualificando a decisão americana como grave, danosa, altamente preocupante, um precedente perigoso que pode ter consequências difíceis de imaginar. Um general lembrou que Trump tem agora base legal nos EUA para violar a soberania brasileira de várias maneiras, como a infiltração de militares para ações contra esses grupos criminosos em território nacional.

Há a preocupação entre eles de que a medida aumente a pressão dos EUA para que o Brasil empregue as Forças Armadas no combate ao crime transnacional, deixando a defesa do Hemisfério a cargo dos americanos. Trata-se de algo inaceitável para os militares. (Marcelo Godoy/Estadão Conteúdo)

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