Domingo, 31 de maio de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 31 de maio de 2026
A decisão dos Estados Unidos de considerar o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas levantou temores entre autoridades do governo Lula obre os efeitos no Pix e possíveis sanções ao meio de pagamento instantâneo.
Os desdobramentos da medida sobre o sistema financeiro brasileiro ainda são incertos. Mas, na análise do Executivo, é possível que o instrumento de transações seja visto como um facilitador para a circulação do dinheiro usado pelo crime organizado – o que pode servir de argumento para penalizar bancos e instituições financeiras do País.
Em entrevista à Globonews na sexta-feira (29), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, explicou que, como o instrumento já tem sido questionado pelo governo Donald Trump em diversas frentes, há o risco de que o Pix seja vinculado às facções criminosas. O sistema já é alvo da principal investigação comercial aberta contra o Brasil, iniciada no ano passado.
“Pode se considerar, a partir de alguma informação que chegue aos Estados Unidos, que as facções criminosas estão usando o Pix. Assim, que haja um ataque ao Pix, uma suspensão, e que empresas que usem o Pix sofram punições”, explicou o ministro. “Faremos todo o esforço e não haverá prejuízo ao uso do Pix pela população brasileira”, complementou.
O risco também foi citado na nota oficial do governo em crítica à decisão dos Estados Unidos. Nela, o Executivo menciona que o sistema “incomoda interesses estrangeiros”.
Pela legislação dos Estados Unidos, a classificação de um grupo como organização terrorista estrangeira (FTO, na sigla em inglês) chancela ao governo americano a fiscalização ampla de instrumentos financeiros que podem ser usados por essa facção, permitindo o aumento de sanções, vigilância sobre operações suspeitas e bloqueio de recursos.
O rastreio do fluxo de recursos costuma ser um dos primeiros passos das autoridades nesse monitoramento. O precedente mexicano é exemplo de como esse tipo de atuação acontece: no ano passado, o Tesouro dos EUA chegou a bloquear transações de instituições financeiras sob suspeita de lavagem de dinheiro para o narcotráfico.
“O Pix entra nesse contexto por ser um meio de pagamento amplamente disseminado no Brasil. Não só a população como um todo utiliza o sistema, mas eventualmente o crime organizado também pode utilizá-lo”, afirma Luiz Miguel Santacreu, analista de instituições financeiras da Austin Rating.
Assim, qualquer instituição que tenha ligação com recursos associados às facções, mesmo que de forma indireta, pode ser monitorada pelas autoridades americanas. No último ano, investigações da Polícia Federal têm apurado como organizações criminosas se articulam dentro da economia formal, inclusive na Faria Lima.
“É um aspecto que pode afetar o sistema financeiro, mas restrito às instituições eventualmente envolvidas com o crime organizado. Não acredito que o governo americano adotaria uma medida deliberada [como o bloqueio definitivo do Pix no Brasil] para afetar o sistema brasileiro como um todo”, diz Santacreu.
Na mira de Trump
O sistema de pagamento entrou na mira do governo Trump no ano passado no contexto da investigação comercial ampla sobre o Brasil, feita nos termos da Seção 301 da Lei de Comércio dos EUA.
“O Brasil também parece se envolver em uma série de práticas desleais com relação a serviços de pagamento eletrônico, incluindo, entre outras, a promoção de seus serviços de pagamento eletrônico desenvolvidos pelo governo”, diz trecho do relatório que comunicou a investigação, em julho passado.
As ditas “práticas desleais” estariam prejudicando gigantes financeiros dos Estados Unidos, em especial bandeiras de cartão de crédito e serviços privados semelhantes ao Pix, como Venmo e Zelle.
Welber Barral, sócio do Barral Parente Pinheiro Advogados e doutor em direito internacional pela USP, afirma que, na prática, fazer negócios com o Brasil vai ser visto como mais arriscado. Bancos, seguradoras, fundos de investimento, empresas de logística e multinacionais podem rever laços comerciais por receio de terem financiado, ainda que indiretamente, uma operação que acabou conectada a uma FTO.
No mercado financeiro, o reflexo mais imediato poderá ser de retirada de recursos estrangeiros, o que afetaria o dólar e a Bolsa. “Existem alguns grandes fundos de pensão que têm critérios ESG que excluem automaticamente qualquer país com instabilidade. Isso pode, sim, afetar diretamente países que têm organizações classificadas como terroristas, e um fluxo estrangeiro relevante pode deixar de vir para cá ou sair daqui pontualmente por conta disso”, afirma Paula Zogbi, estrategista-sênior da Nomad.
Já para empresas e instituições financeiras, a designação dos EUA deve levar ao reforço de mecanismos de controle contra a lavagem de dinheiro. (As informações são da Folha de S. Paulo)