Segunda-feira, 15 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de junho de 2026
A 3ª Delegacia de Polícia de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, deflagrou nesta segunda-feira (15) a segunda fase da Operação Carrasco para combater os crimes de maus-tratos a animais, associação criminosa e estelionato.
A ex-secretária do Bem-Estar Animal do município Paula Lopes e dois veterinários – uma mulher e um homem – foram presos. Eles são investigados por um suposto esquema criminoso de eutanásia ilegal de cães e gatos para desviar valores angariados via Pix para tratamentos dos animais que nunca teriam ocorrido.
A ex-secretária foi presa na Zona Sul de Porto Alegre. Ela nega as acusações. Durante a ação desta segunda, foram cumpridos três mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão. Os agentes apreenderam telefones celulares, computadores e outras provas para a sequência das investigações.
Também foi resgatado um cão debilitado sem as patas dianteiras, que era utilizado para pedidos de Pix nas últimas manifestações em redes sociais.
Primeira fase
As investigações que culminaram na primeira fase da Operação Carrasco, deflagrada no dia 4 de setembro de 2025, tiveram como foco a Secretaria Especial de Bem-Estar Animal de Canoas. Naquela ocasião, a Polícia Civil cumpriu mandados de busca e apreensão, incluindo a sede do órgão municipal, a residência da ex-secretária da pasta, um sítio onde está registrado o seu instituto de proteção aos animais e a casa de uma veterinária que atuava junto à secretaria.
“Após análise de todo o material apreendido, a constatação inicial foi alarmante: o número de eutanásias no local realmente estava muito acima do esperado para o perfil dos animais recolhidos e também em relação aos anos anteriores. Usuários do serviço e agentes da secretaria foram os primeiros a alertar a polícia sobre os fatos”, afirmou a Polícia Civil.
Segunda fase
Na operação desta segunda, a Polícia Civil afirmou que aprofundou o conteúdo do material apreendido e confirmou a relação direta da principal investigada, valendo-se da condição de “protetora dos animais”, com os veterinários de fora da secretaria. Segundo apurado, os animais resgatados eram encaminhados para eutanásia em situações em que ainda havia alternativas de tratamento.
Em um dos casos apurados, a investigação aponta que uma das veterinárias comunicou a possibilidade da doença e perguntou se seria feito o teste antes de qualquer decisão. Mas a resposta atribuída à ex-secretária foi de autorização para seguir diretamente com a eutanásia, sem a confirmação diagnóstica prévia. Os investigadores apontam que isso contrasta com a prática clínica recomendada, já que a cinomose depende de exame específico para confirmação.
A apuração também identificou que, na mesma data, a investigada teria divulgado pedido de apoio financeiro nas redes sociais para custear o suposto tratamento do mesmo animal, enquanto, nos bastidores, autorizava a eliminação da cadela. Para os policiais, esse contraste reforça a suspeita de que havia arrecadação de recursos associada a uma narrativa pública de cuidado que não correspondia ao destino efetivo do animal.
Em outra situação, a ex-secretária tratou com uma veterinária sobre um animal com suspeita de esporotricose. Embora a profissional tenha explicado que havia possibilidade de tratamento, a ordem registrada pela investigação foi interpretada como indicação para fazer “o que tem que ser feito”, expressão que, no contexto, indica a determinação para a realização de eutanásia.
“A investigada, que nas redes sociais ostentava fotos de animais com deficiência que ‘adotava’ e ‘salvava’, usava essa fachada para legitimar suas captações. A exoneração do cargo de secretária não desmobilizou o esquema, que continuou a operar sob a guarda de sua ‘associação’ em um sítio. De acordo com o apurado, ela atuava desde 2020, com 549 vaquinhas realizadas, sendo que o instituto já recebeu um total de R$ 672.670,39, de 14.545 pessoas”, informou a Polícia Civil.
“Eles organizaram-se como uma estrutura criminosa. A morte de cada cão não era um ato de piedade, mas um ato de lucro. A polícia agora busca os registros de microchip de todos os animais que sumiram para, quem sabe, tentar identificar quantas vidas foram sacrificadas em nome de Pix. A Operação Carrasco marca o fim de um ciclo de impunidade. A prisão de quem deveria ser a protetora dos animais ecoa, alertando sobre a necessidade de fiscalização rigorosa nas ONGs e Secretarias de Bem-Estar Animal”, explicou a delegada Luciane Bertoletti.
A Polícia Civil afirmou que a investigação continua com foco na apuração de quantos animais foram vítimas dessa suposta “eutanásia financeira”.