Sábado, 05 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 5 de setembro de 2026
A Expointer termina neste domingo, mas algumas experiências permanecem muito depois de os portões do Parque Assis Brasil se fecharem. Depois de alguns dias caminhando pela feira, minha impressão é de que a Expointer é muito mais do que uma exposição agropecuária. É uma espécie de retrato ampliado do Rio Grande do Sul, onde convivem negócios, tecnologia, tradição, gastronomia, política, cultura, sustentabilidade e, principalmente, pessoas.
Fui à feira com um olhar muito direcionado.
Queria encontrar o que está acontecendo em sustentabilidade, energias limpas e nas transformações que começam a mudar a maneira como produzimos e consumimos energia no campo. Visitei o Pavilhão da Agricultura Familiar, percorri estandes, assisti a painéis e conversei com muita gente. Mas, como sempre acontece na Expointer, meu assunto foi se encontrando com tantos outros.
Neste ano, geopolítica, guerras comerciais e os efeitos do Super El Niño estiveram presentes em diversos painéis. E não ficaram restritos aos auditórios. O tema aparecia nas conversas pelos estandes, entre produtores, empresários, técnicos e visitantes. Não poderia ser diferente. O agronegócio gaúcho está inserido em uma economia global e sofre, direta ou indiretamente, os efeitos das decisões tomadas a milhares de quilômetros daqui.
A presença da Rede Pampa de Comunicações também é uma tradição que ajuda a transformar a Expointer em um grande palco de comunicação. Com transmissões ao vivo, entrevistas, debates e cobertura diretamente do parque, a Rede Pampa leva para fora dos portões aquilo que acontece dentro deles.
Mas talvez uma das coisas de que mais gosto na Expointer seja justamente a mistura. É possível encontrar empresários discutindo negócios de milhões de reais ao lado de famílias encantadas com pássaros, coelhos, cabras e tantos outros animais. Máquinas agrícolas gigantescas e equipamentos de alta tecnologia dividem espaço com a produção artesanal da agricultura familiar. É uma convivência que dificilmente seria possível em outro ambiente.
E essa mistura também acontece entre as pessoas.
Tenho amigos que encontro praticamente uma vez por ano, pelos corredores da Expointer. São encontros que já fazem parte do calendário. Nesta edição, tive a oportunidade de conhecer novos personagens e reencontrar outros tantos. Um exemplo foi o estande da Global Aço, parceiro do espaço Brasa e Prosa, onde fui muito bem recebido pelo empresário José Fernando Goellner Junior.
O estande poderia ser apenas mais um espaço para apresentar produtos. Mas Fernando fez dele um ponto de encontro. Ali, entre conversas, negócios e um bom ambiente de confraternização, tive a oportunidade de conhecer figuras que fazem parte da história do esporte gaúcho, como o multicampeão pelo Grêmio Dinho, o jogador Carlos Vinícius, que esteve no centro das atenções no último Gre-Nal, e, no sábado, o inesquecível Dunga.
É justamente aí que percebo que a Expointer extrapola os negócios. O estande da Global Aço é um bom exemplo disso. A empresa mostra seus produtos, mas o espaço também cria relacionamento. E relacionamento, no mundo dos negócios, talvez seja um dos ativos mais importantes que uma feira pode produzir. Entre tantas conversas, a sustentabilidade voltou várias vezes ao meu caminho.
Vi uma oferta significativa de veículos elétricos e também de equipamentos movidos a eletricidade. Isso é especialmente relevante para o meio rural. À medida que as propriedades rurais conseguem produzir sua própria energia, principalmente por fontes renováveis, abre-se espaço para eletrificar cada vez mais atividades que tradicionalmente dependem de combustíveis fósseis. É aí que entra a descarbonização.
Precisamos deixar de enxergar a redução das emissões de gases de efeito estufa apenas como obrigação ou ameaça. Para o agronegócio, ela pode representar uma enorme oportunidade de eficiência, inovação, redução de custos e geração de novos negócios.
Não é por acaso que “Carbono Neutro” foi o tema de capa da Revista Expointer, distribuída gratuitamente no parque, e também o assunto da matéria especial desta edição. A própria feira adotou neste ano uma iniciativa de neutralização de suas emissões. O sinal é importante: a consciência ambiental está deixando de ser um discurso paralelo e começa a ocupar o centro das discussões do setor.
Manejo sustentável do solo, recuperação de áreas degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta, bioinsumos e melhor manejo dos animais são caminhos que permitem produzir mais e, ao mesmo tempo, reduzir impactos ambientais.
Mas se há uma pessoa que simboliza, de maneira curiosa, essa capacidade da Expointer de transformar uma atração em algo maior, ela é o chef Edi Dagrê. Tive a satisfação de conhecê-lo pessoalmente e, de certa forma, participei de um de seus recordes como “figurante”. Eu estava simplesmente na fila, esperando para receber gratuitamente uma refeição, quando percebi que fazia parte daquele espetáculo.
Edi se autodenomina um “caçador de recordes”. Nesta Expointer, preparou gigantes como o maior pastel do Brasil e o maior xis-salada do Brasil, este último alimentando cerca de duas mil pessoas. Mas o que mais me chamou atenção não foi o tamanho dos alimentos. Foi o propósito.
Edi quer chegar a 100 recordes e distribuir gratuitamente um milhão de porções. E o que sobra dos preparos não é simplesmente descartado: alimentos são destinados a entidades, asilos e comunidades. O recorde, portanto, deixa de ser apenas uma marca pessoal e passa a ser instrumento de mobilização, solidariedade e voluntariado.
Talvez essa seja a grande lição que levo desta Expointer.
Uma feira pode vender máquinas que custam milhões, apresentar tecnologias que apontam para o futuro, discutir guerras comerciais, mudanças climáticas e descarbonização. Pode também colocar lado a lado agricultores familiares, grandes produtores, empresários, pesquisadores, crianças, atletas, chefs, comunicadores e visitantes.
No fim, a Expointer é tudo isso. É uma feira de negócios, mas é, sobretudo, um grande ponto de encontro. E talvez seja justamente por isso que, todos os anos, a gente volte para casa levando muito mais do que aquilo que foi procurar.
– Renato Zimmermann é desenvolvedor de negócios sustentáveis e ativista da transição energética
Contato: rena.zimm@gmail.com