Quarta-feira, 01 de dezembro de 2021

Gilberto Gil conta que foi chamado de “negro boçal” por um professor, e comentários apontam que prática é frequente

No mês da Consciência Negra, relatos de racismo vivenciados nas escolas denunciam ações preconceituosas que ainda hoje acontecem no ambiente de ensino. Em um post de Gilberto Gil nas redes sociais, internautas se solidarizaram com o cantor após ele relatar que os próprios professores do Colégio Marista, em Ituaçu, na Bahia, local onde estudou na adolescência, o discriminavam e chamavam de “negro boçal”. Nos comentários, dezenas de pessoas afirmaram que já haviam passado por situação semelhante.

“Só fui sentir o racismo no Colégio Marista. Era uma discriminação disfarçada, mas com manifestações agudas. Lembro que uma vez, quando pedi uma explicação, um professor simplesmente disse: “cale a boca, seu negro boçal”. E eu calei. Era uma época muito difícil”, escreveu Gil, que já havia feito a mesma declaração em 2019, no Twitter, sobre esse caso de preconceito que o marcou.

No programa Conversa com Bial, da TV Globo, veiculado no ano passado, o artista relembrou sua infância na cidade de Ituaçu, interior da Bahia, e afirmou que, por ser filho de médico e professora, não se sentia vítima de racismo. A realidade mudou ao entrar para o ginásio, por estudar em escola da elite, com “apenas 10 negros”.

Na última semana, um outro episódio racista em escola repercutiu na internet. O áudio de uma professora da Apae Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, viralizou após ela pedir para que os alunos colassem bombril em um desenho que representava uma pessoa negra de cabelos cacheados. Segundo relato de pais de alunos, a pedagoga disse ter passado a tarefa para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra.

“Vocês vão fazer o seguinte: colocar em cima do cabelo, fazendo um enfeite com bombril”, disse a professora no áudio.

Em outro caso de discriminação, um Colégio Adventista de Tocantins divulgou imagens de crianças brancas pintadas com tinta preta e usando uma peruca simulando o cabelo black power, afirmando que se tratava de uma caracterização. A prática conhecida como ‘blackface’ é caracterizada como racismo recreativo, que segundo Adilson Moreira, professor e doutor em direito antidiscriminatório, consiste em ridicularizar e estereotipar pessoas negras.

“O racismo recreativo é uma política cultural hostil estratégica, ao comparar pessoas negras a animais, associá-las à criminalidade. Isso permite que pessoas brancas ou instituições mantenham uma imagem social positiva enquanto argumentam que qualquer tipo de humor é sempre benigno, por produzir um efeito cômico, se esquivando da intenção de ofender ou discriminar”, explica.

Após a repercussão negativa, a escola apagou as fotos e publicou uma nota de esclarecimento afirmando que não fez pintura nas crianças e nem as estimulou. Movimentos negros do Tocantins se posicionaram repudiando a ação. O Coletivo Nacional de Juventude Negra – Enegrecer – disse que “é inconcebível que uma escola que se propõe o papel de educar futuros cidadãos, se preste ao papel de expor e incitar crianças a discriminação ou preconceito de raça, cor”.

O Coletivo Negro de Gurupi afirmou que a estratégia pedagógica usada pela escola foi inadequada e que a população negra não quer ser ridicularizada pelo tom de pele, cabelo e outros traços. “Não vamos aceitar atitudes que há muito tempo provocam ridicularização e rebaixamento”.

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