Terça-feira, 25 de junho de 2024

Inundada de turistas, Veneza vai rastrear trajetos dos visitantes para conter a covid

Quando a pandemia de coronavírus espantou os visitantes de sua cidade, alguns venezianos ousaram sonhar com uma Veneza diferente — que pertencesse a eles tanto quanto aos turistas que lotam suas piazzas e becos de pedra, expulsando os habitantes locais até de seus apartamentos.

Na cidade adormecida, a harmonia de seus 100 campanários, o murmurinho das águas de seus canais e o dialeto veneziano ressoaram subitamente como a trilha sonora dominante. Os cruzeiros que despejavam diariamente milhares de turistas e causavam ondas daninhas na cidade que afunda desapareceram — e depois foram banidos.

Mas agora, o prefeito está levando o controle de multidões a um novo nível, impulsionando soluções de alta tecnologia que alarmam até mesmo aqueles que há muito defendem uma Veneza para os venezianos.

As autoridades da cidade estão acessando dados de telefones celulares de turistas sem sua autorização e usando milhares de câmeras de segurança para monitorar visitantes e evitar aglomerações.

No próximo verão, seu plano é instalar portões nos principais pontos de entrada da cidade, projeto que causa controvérsia há muito tempo; visitantes que vierem passar o dia terão de reservar sua entrada com antecedência e pagar uma taxa para entrar. Se pessoas demais quiserem entrar, algumas serão rejeitadas.

O prefeito Luigi Brugnaro, conservador e favorável ao comércio, e seus aliados afirmam que seu objetivo é criar uma cidade melhor de se viver para os venezianos sitiados. “Ou somos pragmáticos ou vivemos num mundo de fantasia”, afirmou Paolo Bettio, diretor da Venis, a empresa que manipula tecnologias de informação para a cidade.

Mas muitos residentes consideram distópico o plano de monitorar e controlar o movimento das pessoas — ou veem isso como um truque publicitário, uma maneira de atrair turistas mais ricos, que poderiam estar desmotivados a visitar a cidade por causa das multidões.

“É como declarar de uma vez por todas que Veneza não é mais uma cidade, mas um museu”, afirmou Giorgio Santuzzo, de 58 anos, que trabalha como fotógrafo e artista na cidade.

Segundo várias métricas, Veneza já é uma cidade morta. Muitos venezianos estão fartos de ter de ir à terra firme comprar roupas de baixo porque as lojas de suvenir que vendem muranos falsificados expulsaram os comércios que atendiam os habitantes locais.

Eles estão cansados de turistas perguntando onde fica a Praça de São Pedro — que é em Roma — e de políticos ordenhando o dinheiro do turismo da cidade enquanto desprezam as necessidades de seus residentes.

Ainda assim, afirmam muitos, soluções de alta tecnologia não trarão de volta uma Veneza mais autêntica. Em vez disso, eles temem que isso furtará a cidade do romantismo que ainda lhe resta.

Em uma manhã recente de verão, um casal espanhol, Laura Iglesias e Josép Paino, estava claramente encantado com a cidade enquanto vagueava entre seus antigos palazzos e sinuosos canais. Eles afirmaram que tinham viajado no tempo. “Veneza”, suspirou Iglesias, “é o lugar perfeito para se perder de si mesma”. Mas Veneza, por sua vez, não os perdeu de vista.

Sobre as cabeças do casal, uma câmera de alta definição registrava sua imagem a 25 quadros por segundo. Um software acompanhava sua velocidade e trajetória. E em uma sala de controle a poucos quilômetros de lá, autoridades municipais examinavam os dados colhidos de seus celulares e dos aparelhos de telefone de praticamente todos os que estavam em Veneza naquele dia. O sistema é projetado para coletar dados como as idades das pessoas, sexo, país de origem e localizações anteriores.

“Sabemos minuto a minuto quantas pessoas estão em visita e aonde elas estão indo”, afirmou Simone Venturini, o secretário de Turismo da cidade, enquanto observava as oito telas da sala de controle, que mostram imagens em tempo real da Praça de São Marcos. “Temos controle total da cidade.”

Originalmente, câmeras de segurança que transmitem imagens em tempo real — juntamente com outras centenas localizadas em toda a cidade — foram instaladas para flagrar criminosos e barqueiros irresponsáveis. Mas agora elas passaram a vigiar os visitantes e funcionam como uma maneira de as autoridades localizarem aglomerações que pretendem dispersar.

As autoridades afirmam que dados de localização de telefones celulares também as ajudarão a evitar os tipos de multidão que tornam uma luta diária atravessar as pontes mais famosas da cidade. Além disso, elas estão tentando descobrir quantos turistas vão a Veneza somente passar o dia — e gastam pouco na cidade.

Uma vez que as autoridades estabeleçam esses padrões, os dados serão aplicados para orientar o uso dos portões e do sistema de reservas. Se multidões forem esperadas em dias específicos, o sistema sugerirá alternativas de itinerários ou datas para as viagens. E a taxa de entrada será ajustada para cobrar um valor maior, de até € 10 (ou cerca de R$ 63), nos dias que um trânsito maior de turistas for esperado.

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