Sábado, 13 de julho de 2024

Lula terá de deixar ideias do PT de lado para arrumar economia

As primeiras ações de Lula deveriam ser de arrumação do país, ainda mais depois de uma campanha eleitoral — a pior de nossa democracia — que agravou a cisão social, a desconfiança nas instituições e o medo nos cidadãos. Como construir consenso para reformas quando irmão desconhece irmão?

Isso vale particularmente para medidas que mexem no bolso de todos, mas são necessárias para conter o aumento da relação dívida pública/PIB nos próximos anos — um ingrediente crucial para a taxa de juros voltar a patamares razoáveis. Será preciso um esforço fiscal na casa de R$ 240 bilhões, sem contar as despesas represadas, como reajuste do funcionalismo, as medidas eleitoreiras de difícil reversão ou as promessas de campanha que representam despesas extras acima de R$ 100 bilhões.

A tarefa é árdua, pois, diferentemente da reforma da Previdência — medida robusta sobre a qual havia maior consenso —, será necessário avançar em vários temas em que falta maturidade no debate público, como a reforma administrativa. Tampouco o clima no Congresso será tranquilo. Como mostraram os economistas Marcos Lisboa e Marcos Mendes, a maioria dos reeleitos aprovou as emendas constitucionais para furar o teto de gastos. A tarefa agora inclui, portanto, arrumar o regime fiscal. Sem isso, o esforço para estabilizar a economia precisará ser maior. Com plano de voo claro e compromisso com regra fiscal adequada e crível, é possível colher a queda da inflação e o corte de juros antes de se concretizar a consolidação nas contas públicas. E, para a regra ser crível, é necessário o presidente ter força no Congresso. Isso envolve trazer partidos aliados para o governo. O bom funcionamento do presidencialismo de coalizão não pode faltar na lista de arrumação — e a experiência dos mandatos de Lula não foi boa, com consequências bem conhecidas.

Esse é só o início da tarefa para acelerar o crescimento. As condições hoje são mais difíceis, pois o avanço tecnológico escancara o atraso do parque fabril e o baixo capital humano. De quebra, o ar cada vez mais tóxico num país que assusta e decepciona em vários quesitos, da segurança pública às condições para empreender, alimenta a saída de recursos e de talentos. Fórmulas de estímulo estatal defendidas pelo PT precisam ser substituídas por ações para favorecer o investimento privado e a inovação — como a criação do Imposto sobre o Valor Agregado — e para reduzir o atraso na educação, o que também favorece um crescimento mais inclusivo, revertendo o quadro atual de recuperação desigual do mercado de trabalho. A pobreza aumenta, e a nova classe média corre o risco de encolher. Crescimento robusto e sustentado depende de ser também sustentável do ponto de vista ambiental, sob pena de o Brasil ser duramente prejudicado no comércio mundial e na atração de investimentos.

O diálogo com os vários segmentos da sociedade, compreendendo os temores daqueles que votaram em Bolsonaro, e o compromisso com o combate à corrupção e com uma ação estatal mais cuidadosa e responsável são ações cruciais após a descida do palanque. Na bagunça atual, com sociedade e instituições estressadas, o presidente pode pouco. (Zeina Latif, consultora econômica e autora do livro “Nós do Brasil: nossa herança e nossas escolhas”.)

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