Quinta-feira, 25 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 24 de junho de 2026
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que o relator do caso do Banco Master, André Mendonça, cometeu uma “impropriedade” ao receber de um advogado uma “proposta de delação seletiva” no Caso Master. Gilmar falou em “erro crasso” no cenário em que o colega estaria “participando de conversas” na condução do acordo. A declaração foi dada em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, alguns dias após Mendonça responder às críticas durante o julgamento na Segunda Turma.
Na sessão da última terça-feira (23), que manteve a prisão de Henrique e Felipe Vorcaro – pai e primo do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do banco Master –, André Mendonça confirmou ter sido procurado por um advogado com uma proposta que descreveu como “delação seletiva” e disse tê-la recusado.
“Chegou uma proposta por um advogado. Perderam o pudor. Queriam fazer uma delação seletiva. Na minha cara. Eu disse: não faço questão de delação. Agora, delação seletiva, comigo, não”, afirmou Mendonça na sessão.
No Roda Viva, Gilmar reconheceu que André Mendonça rejeitou a proposta, mas manteve a crítica: o simples fato de o relator ter recebido o advogado e sido exposto ao conteúdo da oferta já configura, a seu ver, uma violação dos limites que a lei impõe ao magistrado.
“A lei não permite que o relator participe ou o juiz participe da delação. O acordo é entre Ministério Público ou a Polícia Federal e o delator. Então, aqui já há um erro crasso. Se está participando de conversas ou se está expulsando advogados do processo, isso tem algo de errado.”
Gilmar ponderou que a tarefa de Mendonça é genuinamente difícil, mas cobrou que o relator se paute por critérios claros, para que se evite repetir os erros que marcaram a Lava-Jato.
“É um trabalho difícil. E por isso é importante que se paute por uma métrica. É importante que não se repitam os erros do passado. Na conversa que nós tivemos, por exemplo, André Mendonça disse que tinha recebido um advogado fazendo proposta de delação seletiva. E aqui já há uma impropriedade.”
Paralelos
O ministro disse enxergar “similitudes” entre a condução do caso Master e os excessos que marcaram a Operação Lava-Jato, e elencou os elementos que o preocupam: a substituição de relatores, os vazamentos de informações sigilosas, as prisões de familiares e a morte de um dos alvos após a detenção.
“Nós tivemos a substituição dos relatores. De Toffoli passa para André Mendonça e em seguida o ministro André libera uma ordem que havia sido dada pelo então relator no sentido de não permitir que a CPI ou a CPMI fizesse aquela quebra de sigilo. E houve aquilo que nós conhecemos, a quebra de sigilo, inclusive de conversas íntimas e a revelação.”
Gilmar Mendes citou que a Lava-Jato é o exemplo mais acabado dos riscos que se apresentam quando esses sinais são ignorados. O ministro lembrou que, à época, proferiu votos vencidos que continham advertências sobre o caminho que a operação trilhava.
“Inicialmente eram advertências que se faziam na linha: não vamos por aí. Eu ainda me lembro dizendo: nós temos um encontro marcado com as prisões alongadas de Curitiba. Parecia um mantra. E depois isso se tornou verdade e todo aquele caos que foi revelado na operação Spoof, na Vaza Jato, nos envergonha hoje.” (Com informações do jornal O Globo)