Domingo, 21 de abril de 2024

Monica Bellucci leva escritos de Maria Callas à Broadway

Existem estrelas da ópera, e existe Maria Callas. Birgit Nilsson ou Luciano Pavarotti podem ter sido ótimos, mas não cantaram postumamente. Callas, por outro lado, tem feito turnês — como holograma — décadas depois de sua morte, em 1977. Poucos ouviram falar sobre a peça “Bravo, Caruso!”, de William Luce, sobre o clássico tenor Enrico Caruso, mas “Master class”, de Terrence McNally, que gira em torno dos métodos exigentes de Callas como professora, ganhou um prêmio Tony em 1996 e é revivida regularmente.

Os fãs desta soprano — os mais selvagens deles foram apelidados carinhosamente de “Callas crazoids”, algo como “doidos por Callas”, pelo crítico Anthony Tommasini — ficarão ocupados em 2023, ano do centenário dela. O primeiro compromisso será em Nova York, com a atriz italiana Monica Bellucci, que esta semana aportou o monólogo “Maria Callas: Letters & Memoirs” (“Cartas e memórias”, em tradução livre) no Beacon Theatre, na Broadway.

Bellucci, de 58 anos, tem estrelado a peça, na qual lê trechos de escritos de Callas, desde 2019, quando estreou em Paris. No entanto, ela ainda acha difícil explicar o domínio peculiar e duradouro que a soprano — frequentemente chamada de La Divina — exerce sobre o imaginário coletivo hoje.

“Ela tinha uma aura”, disse Bellucci em Nova York.

A própria Bellucci estava majestosamente resplandecente naquele dia, projetando uma espécie de elegância com a voz esfumaçada frequentemente associada a nomes famosos da Era de Ouro de Hollywood. Porém, seu currículo é menos previsível do que esta referência pode sugerir: ela foi de dramas íntimos a “007 contra Spectre” (2005), da Maria Madalena em “A paixão de cristo” de Mel Gibson (2004) à vítima de um estupro brutal em “Irreversível” (2002), do provocador francês Gaspar Noé. Sua reputação como um símbolo de glamour e sofisticação europeus está tão estabelecida que ela até fez piada com isso num episódio da série “Dix pour cent” (“Eu nunca tive um relacionamento com o meu agente!”, esclarece, entre risos, aos fãs do seriado francês).

Destino

Ainda assim, por mais aberta a novas aventuras que Bellucci tenha sido, ela evitou o teatro. Destemido, o diretor, escritor e fotógrafo Tom Volf, que fez o documentário “Maria Callas — Em suas próprias palavras” (2017), foi até o apartamento dela para apresentar um projeto baseado no livro dele, “Maria Callas: Letters & Memoirs”.

“Eu lembro que estávamos na sala, e ela abriu o livro aleatoriamente e começou a ler em voz alta”, recorda Volf, de 37 anos, em entrevista por vídeo. “Foi quando eu vi a alquimia imediatamente. De repente, seu corpo, sua atitude e sua emoção estavam combinando com o que eu sentia ser os de Callas, especialmente em algumas cartas nas quais você pode ler a mulher, e não a artista ou a figura pública. Eu chamo isso de alquimia, está além da semelhança. Eu acredito em destino, como Callas acreditava.”

Sempre que Callas surge, referências quase espirituais a “aura” e “destino” acabam se infiltrando na conversa.

Igualmente impressionada, Bellucci decidiu deixar de lado sua antiga ressalva de subir ao palco.

“A sensação de beleza que senti foi maior do que o medo”, justifica ela, que veste na Broadway um Saint Laurent preto que realmente pertenceu a Callas. “Eu queria compartilhar o que senti com outras pessoas. Foi através do teatro que consegui isso.”

É difícil negar que a dupla Callas-Bellucci parece predestinada. Bellucci até interpretou uma estrela da ópera italiana inspirada em Callas, chamada de La Fiamma, na terceira temporada da série “Mozart in the jungle” (Prime Video). Além da semelhança física, Bellucci, uma parisiense nascida na Itália, construiu uma carreira internacional multilíngue e transfronteiriça, assim como Callas, uma cantora grega nascida em Nova York, fez décadas antes. E ambas tiveram que passar por provações específicas de celebridades femininas.

“Acho que Monica pode se relacionar de forma muito instintiva e forte com Callas como mulher”, analisa Volf. “Talvez por entender a dualidade entre tentar levar uma vida como mulher e como uma artista com fama mundial, e todas as dificuldades e desafios que vêm com isso.”

Vida pessoal

A mística de Callas, para além de seu talento como atriz e cantora, era alimentada por uma vida pessoal agitada, para dizer o mínimo. Dizia-se que ela tinha rivalidades amargas com colegas; ela foi esmagada por um caso tórrido e infeliz com o magnata grego Aristóteles Onassis; e teve um relacionamento conflituoso com seu corpo. — Callas perdeu uma quantidade considerável de peso graças a uma dieta radical, que alguns fãs relacionam com seus eventuais problemas vocais.

“Ela teve a coragem de seguir seu coração. É por isso que, quando dizem que ela teve uma vida trágica…”, opina Bellucci, pausando no meio da frase. “Ela teve uma vida corajosa. Ela quis se divorciar num momento em que, na Itália, era proibido. Callas é inspiradora até hoje porque tinha todos contra ela, e foi uma lutadora.”

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