Segunda-feira, 20 de julho de 2026

Na véspera de completar um ano da morte de Preta Gil, Carolina fala sobre a melhor amiga

Carolina Dieckmmann estava se despedindo de Diná, sua personagem no remake cinematográfico da novela “A viagem” (com duas versões, em 1975 e 1994). Para interpretar a protagonista da trama de Ivani Ribeiro, que aborda a vida após a morte sob a ótica do espiritismo, cortou e pintou o cabelo de castanho escuro. A atriz recebeu a Revista ELA no salão de Anderson Couto, na Barra, ainda com tinta nos fios e um objetivo: voltar a ser loura. “Curto mudar, sempre fui muito disponível, desde raspar a cabeça, em ‘Laços de família’ (2000), até ficar morena, ruiva. Gosto dessa parte do processo. Desta vez, me senti irreconhecível com o visual, foi bem forte a transformação, além de ter sido um trabalho desgastante emocionalmente”, analisa. “Acho que fiquei doente por causa de tanta entrega. Por isso, a pressa em resgatar minha identidade”, reflete a carioca de 47 anos.

A doença a que Carolina se refere foi uma pielonefrite, infecção bacteriana que atingiu seu rim esquerdo durante as filmagens e a deixou no hospital por mais de quatro dias, no início de junho. “Quase tive septicemia”, frisa.

Em paralelo à bem-sucedida trajetória na TV, encontrou no cinema um espaço de expansão. Em “(Des)controle” (2025), dirigido por Rosane Svartman, tocou na ferida do alcoolismo feminino. Além de “A viagem”, com direção de Henrique Sauer, estrela “Pequenas criaturas”, que entra em cartaz nesta quinta-feira. No filme de Anne Pinheiro Guimarães, vive Helena, uma mulher que, em 1986, muda-se com dois filhos para Brasília e, depois de o marido partir numa viagem, descobre que está sendo traída. “Ela paralisa, se vê perdida sem saber o que fazer. Entra num estado de torpor. Passei por isso ao perder minha mãe, não me reconheci. Em alguns momentos, falava: ‘Como assim ela morreu?’”, lembra.

A atriz – cuja carreira começou como modelo aos 13 e na TV, em 1993, na minissérie “Sex appeal” – tem encarado intensos desafios, dentro e fora da tela. Na vida real, a mãe de Davi, de 27 anos, da relação com o ator Marcos Frota, e de José, de 18, do casamento com o diretor Tiago Worcman, precisou lidar com o luto numa sucessão de perdas desde 2019. “Minha mãe, minha avó e a Preta (Gil, sua melhor amiga)”, enumera.

Na conversa, entre chás e cafés numa sala reservada do salão de beleza, a atriz falou de luto, amor e sexo, maternidade e corpo. A seguir, os melhores trechos da entrevista:

1-No meio das filmagens de “A viagem”, você foi internada. O que aconteceu?

Tive uma infecção urinária sem sintoma. Minha imunidade devia estar baixa por causa das filmagens. O filme fez com que eu mexesse em coisas pesadas, como espíritos obsessores. Fui jantar com uma amiga, e ela notou que eu estava com febre, 39 graus e meio. De lá, fui para a Clínica São Vicente e entrei no antibiótico venoso. Já estava com muitos órgãos infectados, foi grave. Ia para o Maranhão dois dias depois.

2-Acha que foi um sinal de alerta do seu corpo diante dos temas contemplados pelo filme?

Sim. Acho a morte meio incompreensível. Não entendo por que umas pessoas vivem tanto e outras, pouco. Desde a perda da minha mãe (Maíra Dieckmann, de um mal súbito, em 2019), passei a questionar minhas fé e existência. Não posso dizer que tenha processado os lutos, e senti isso durante “A viagem”. Percebi estar no jardim da infância dessa compreensão, tentando apaziguar em mim os sentimentos. Não realizei a morte da Preta (que fará um ano amanhã). Para mim, é uma coisa inacreditável.

3-Você tem consciência da amiga dedicada que foi para a Preta?

Ter sido uma boa amiga me dá um alento, ela falou muito sobre isso, sobre a minha amizade. Me ajuda saber que a Preta pôde contar com meu amor gigante, o tempo todo.

4-O que aprendeu sobre a vida acompanhando esse processo?

Que a gente não tem controle sobre nada. Gravei um vídeo para o Instagram falando sobre isso: podemos saber quanto dinheiro temos, mas não quanto tempo.

5-Falando em tempo, você está casada há 23 anos com tiago. como manter a chama acesa numa relação longeva?

A coisa do sexo depende da admiração que se sente pela pessoa e manter a chama do amor acesa é permanecer curioso em relação ao outro. Numa relação longa, há fases. Do primeiro ao último dia das filmagens de “A viagem” (cerca de um mês e meio), a gente não transou. Nessas horas, é preciso ter ao lado uma pessoa que admire a sua entrega ao trabalho. Isso é o mágico da minha relação com meu marido, esse olhar. Além do tesão que sentimos um pelo outro.

6-Nas entressafras, vocês debatem o assunto?

Nesse caso que te contei, Tiago sacou que eu estava entregue ao trabalho, exaurida. Eventualmente, a gente conversa porque ele fica chateado, o homem tem mais demanda fisiológica, testosterona e um monte de coisa. O principal é compreender que há momentos em que o sexo não vai ser o mais importante.

7-Já questionaram a monogamia?

Nem passa pela nossa cabeça. Minha experiência com o amor, o motivo que me leva a transar, segue um caminho espiritualizado. Não caberia uma terceira pessoa.

8-Em entrevista ao podcast de Tati Bernardi, você disse que te olham com uma certa pena por ter transado com quatro homens na vida. Sente mesmo isso?

Muita gente fala em tom de brincadeira, mas, ao mesmo tempo, tem uma coisa de me achar pouco experiente. Mas me sinto experiente onde gostaria. Não queria ter transado com muita gente. Assim como há pessoas que querem fazer todo o sexo possível, e tudo bem. Tenho curiosidade no amor, o assunto da minha vida. Trabalho com o que amo, amo ter sido mãe jovem, amo meus filhos, meu marido, minha casa e meus amigos. Todas as minhas dedicações são por meio do amor.

9-Continua mandando nudes para o Tiago? Qual a relevância de ter uma lei que leva seu nome (a lei Carolina Dieckmmann , criada em 2012, tornou crime a invasão de aparelhos eletrônicos para obtenção de dados particulares)?

Continuo, sim. Naquela época (quando fotos nuas da atriz foram expostas na internet por ela ter se recusado a pagar chantagem de hackers), quem mais sofreu foi meu filho Davi, que tinha 13 anos. Um dia, já aos 19, ele falou que a coisa mais legal da minha carreira foi ter uma lei com o meu nome. Sentiu orgulho.

10- Como lida com a patrulha da internet sobre seu corpo e a questão da magreza?

Essa parte da estética não me pega tanto. Acho feio: todo mundo já sabe que não se julga o corpo alheio. Quando estou num dia em que determinados comentários podem me atravessar, não entro na rede. Se não for para responder com delicadeza e dar amor, nem vou. (Por Marcia Disitzer/O Globo)

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