Segunda-feira, 02 de novembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 2 de novembro de 2026
Diretor-executivo para as Américas da Eurasia, Christopher Garman não vê novas retaliações do governo norte-americano ao Brasil, mesmo após a ida de Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado na eleição presidencial, aos Estados Unidos — o senador chegou a se autodeclarar presidente do Brasil.
“Não vislumbro retaliação. É claro que pode estressar a relação bilateral, mas acho que o equilíbrio fica como está”, afirma Garman.
Na avaliação do diretor da Eurasia, maior consultoria de risco político do mundo, no entanto, é difícil que o Brasil consiga avançar nas negociações tarifárias, uma vez que o governo brasileiro não sinaliza disposição para atender às exigências do governo de Donald Trump.
“É difícil retirar as tarifas sem o Brasil dar nada em retorno”, diz Garman. “Os brasileiros não estão dispostos a aceitar as exigências que os americanos estão colocando para a retirada das tarifas.”
A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.
1) Pode haver algum novo impacto dessa ida de Flávio Bolsonaro aos EUA na relação do governo Trump com o Brasil?
A nossa leitura das declarações de Trump nessas últimas 48 horas, na medida em que ele disse, na mesma frase, que não tomou partido (da eleição do Brasil) e que tem uma relação com o presidente Lula, a nossa leitura dessas falas é: “Vou registrar a minha queixa de reconhecimento das queixas do Bolsonaro, mas a vida segue”. Essa foi a nossa leitura. E parece que ele está falando exatamente isso hoje. Então, não vislumbro retaliação. É claro que pode estressar a relação bilateral, mas acho que o equilíbrio fica como está.
2) Qual é o espaço que o governo brasileiro tem para continuar negociando tarifas e eventuais sanções que ainda persistem? Como você vê esses dois últimos anos de Trump em relação ao Brasil?
O equilíbrio hoje, em Washington, no governo Trump, é que temos uma base de diplomatas no Departamento de Estado com uma postura muito arraigada contra o Brasil, com essa visão mais ideológica da região. Eles defenderam as sanções e as tarifas. O presidente Trump ficou frustrado com essa política depois que não teve êxito em tirar Jair Bolsonaro das suas dificuldades jurídicas. Ele ficou frustrado. E abriu-se uma janela para essa relação bilateral dos dois (Trump e Lula), que aconteceu na reunião da ONU, um pouco mais de um ano atrás, e eles desenvolveram uma relação pessoal, e o presidente Trump valoriza as relações pessoais. O presidente Trump está mais aberto a negociar com o Brasil. O problema é que, quando você coloca as tarifas punitivas, Trump tem um perfil transacional.
3) O que isso significa?
É difícil retirar as tarifas sem o Brasil dar nada em retorno. Mesmo com a postura mais aberta dos dois presidentes, o preço de retirada de tarifa não é fácil. Os brasileiros não estão dispostos a aceitar as exigências que os americanos estão colocando para a retirada das tarifas. Então, acho que, após a eleição, os dois presidentes vão sentar, devem se encontrar e vão iniciar um processo de negociação. Mas não deve haver uma redução rápida dessas tarifas. Existe o risco de novas medidas punitivas, como uma nova aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes? Existe, mas acho que a escalada tende a ser modesta. No fundo, o que Trump está querendo é seguir a vida como está, sem pegar a disputa pelo lado do Flávio para poder acelerar mais.
4) As projeções para as eleições de meio de mandato nos EUA apontam para possíveis vitórias dos democratas na Câmara e no Senado. O resultado da eleição pode alterar alguma coisa na relação com o Brasil?
Eu não acho que uma derrota dos republicanos no Senado e na Câmara, que é o nosso cenário-base, altere muito a relação bilateral com o Brasil. Mas eu diria que, se os republicanos perderem o Senado e a Câmara dos Deputados, isso coloca algumas restrições sobre o potencial de os Estados Unidos implementarem novas tarifas que seriam questionadas pelo Congresso. Então, isso coloca um pouco de restrição para novas rodadas de tarifárias acima do que já foi feito. E é um presidente que vai estar recuado, sendo investigado e infernizado pelos democratas, com dificuldade de aprovar qualquer coisa no Congresso. (Com informações de O Estado de S. Paulo)