Terça-feira, 05 de julho de 2022

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No Alasca, epicentro da pandemia nos Estados Unidos, médicos precisam escolher quem irá viver ou morrer

Se a pandemia de covid-19 perde força nas Américas, alertou a Organização Pan-Americana da Saúde, a situação é preocupante no Alasca, atual epicentro da crise sanitária nos Estados Unidos. A situação no Estado é tão crítica que os médicos precisam escolher quem tratar.

Quase dois anos após o início da pandemia, a situação no exclave (parte do território de um país completamente rodeada por território(s) de outro) americano lembra as cenas vistas nos primeiros meses do ano passado: faltam equipamentos, os pacientes são tratados nos corredores e há racionamento de emergência. Diante da sobrecarga, o governador Mike Dunleavy, do Partido Republicano, pediu ajuda de médicos de outras regiões do país.

No maior hospital do Estado, o Centro Médico Providence, em Anchorage, os médicos precisam escolher quem tratar de acordo com as melhores probabilidades de sobrevivência. Em um caso, dois pacientes precisavam de hemodiálise contínua, mas havia apenas uma máquina disponível. Os médicos puseram um deles no equipamento e depois trocaram para o outro. O primeiro não resistiu à covid.

Durante boa parte da pandemia, o isolamento natural do estado ajudou a manter a crise sanitária sob controle. Havia critérios rigorosos de testagem para quem desembarcava vindo de fora e muitos vilarejos foram postos em quarentena para conter a transmissão. No início da vacinação, mobilizaram aviões e barcos para que as doses chegassem às regiões mais remotas.

Na última semana, contudo, o Alasca registrou 125 novos casos por 100 mil habitantes, a maior taxa entre os estados dos EUA e o quádruplo da média nacional. As mortes não sobem na mesma proporção: houve 0,37 óbitos por cada 100 mil habitantes, abaixo da média nacional de 0,54.

Resistência à vacina

Como em boa parte dos outros Estados, no entanto, há grande resistência à vacina. Hoje, apenas 58% da população tomaram ao menos uma dose, e 51% já completaram seu ciclo vacinal, de acordo com dados do Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos EUA.

Em paralelo, o governador Dunleavy vem resistindo a medidas mais contundentes para conter a transmissão, algo impopular em boa parte do eleitorado republicano predominante no Alasca, onde o então presidente Donald Trump venceu no ano passado com quase 53% dos votos. Enquanto os novos casos caíram 24% nos EUA na última quinzena, eles aumentaram 7% no estado.

Após 19 meses de pandemia, a sobrecarga do sistema hospitalar não é novidade, mas a distância do remoto estado para o resto do território americano impede a flexibilidade de transferir pacientes para cidades ou Estados vizinhos. A ajuda principal está a mais de 2.400 km de distância, em Seattle, cujos hospitais também enfrentam dificuldades para lidar com a crise sanitária.

“Quando os hospitais estão lotados, não é possível simplesmente pôr os pacientes em uma ambulância e levá-los para outras cidades”, disse a senadora Lisa Murkowski no plenário do Senado na semana passada, descrevendo sua própria ida à emergência em Fairbanks para levar um parente que precisava de ajuda.

Resistência às máscaras

Médicos e enfermeiros vêm pedindo para que a população leve a crise sanitária mais a sério, mas não raramente são recebidos com hostilidade.

No fim do mês passado, por exemplo, quando a Assembleia Legislativa de Anchorage debatia o uso obrigatório de máscaras, os especialistas foram vaiados por pessoas que demandavam tratamento com ivermectina, remédio sem qualquer eficácia comprovada contra a covid-19, promovido também pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em uma outra reunião, no dia seguinte, uma pessoa armada foi presa por causar desordem. Nesta sessão, vários moradores usavam uma estrela de Davi amarela, comparando o uso obrigatório de máscaras ao Holocausto. Vários médicos, segundo o The New York Times, debateram se deveriam ir ao encontro.

Nos hospitais, enquanto isso, os especialistas se deparam com dilemas éticos sobre a triagem que precisam fazer. Segundo Michael Bernstein, do hospital em Anchorage, a equipe de triagem precisou tomar decisões em cerca de 10 casos. Em um deles, por exemplo, os respiradores foram alocados para pessoas com menos complicações e um homem com covid-19 e câncer avançado não sobreviveu.

O hospital também foi forçado a postergar atendimento de outras formas, disse Bernstein. Até semana passada, por exemplo, 29 cirurgias cardíacas haviam sido adiadas e 21 pedidos de transferência foram negados.

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