Domingo, 23 de agosto de 2026

Nossos mascotes urbanos

Aprender com erros do passado parece não ser o nosso forte, principalmente no que diz respeito a animais exóticos e silvestres em áreas urbanas.

Vejamos:

Primeiro foram os pombos (Columba lívia), introduzidos no Brasil a partir do século XVI, basicamente para consumo da carne e ovos, na época, muito apreciados em Portugal.

Com a vinda da família real portuguesa, em 1808, a importação dos pombos passou a ser em larga escala.

O objetivo era imitar a estética das grandes metrópoles europeias, como Paris e Lisboa, “embelezando” praças e logradouros públicos com os pombos inseridos na paisagem.

Cem anos depois, entre 1903 e 1906, o então prefeito da capital do Brasil, Francisco Pereira Passos, e o diretor-geral de Saúde Pública do RJ, Dr. Oswaldo Cruz, promoveram a importação e soltura de cerca de 200 passarinhos (Passer domesticus), o popular pardal.

O plano era utilizar os pardais no combate aos mosquitos, como parte de um grande projeto de saneamento da cidade do Rio de Janeiro, que, aliás, deu certo, porém trazer os pardais foi um grande erro.

Os pardais têm sua alimentação à base de sementes; somente as fêmeas, durante a criação de filhotes, é que caçam mosquitos.

Ninguém sabia.

O que, na época, ninguém sabia também é que tanto pombos como pardais são transmissores de várias doenças para humanos e aves de produção, como a gripe aviária, entre outras.

Pombos e pardais foram introduzidos por ignorância científica e por valores estéticos, expondo a população a uma série de doenças.

Atualmente, é expressamente proibido alimentar principalmente pombos em espaços públicos.

Há um monitoramento de forma a evitar a proliferação destas aves, com fechamento de espaços para que não construam ninhos em prédios, para evitar a não proliferação de zoonoses como criptococose e histoplasmose.

A bióloga Virgínia Steiger alerta:

“ O maior risco está relacionado ao acúmulo de fezes em locais frequentados por pombos. Quando esse material (fezes) está seco e é revolvido durante limpezas ou revoadas das aves ou outras movimentações, como ventos, a poeira e esporos dos fungos presentes nas fezes podem ficar em suspensão e inalados por pessoas.”

Não é por outro motivo que os pombos são popularmente chamados de “ratos com asas”, tamanho é o potencial de contaminação destas aves.

Passados mais de cem anos, surge um novo “mascote” na paisagem de Porto Alegre: as capivaras do Guaíba são a nossa mais moderna valorização da estética ecológica.

As capivaras podem ter até duas crias por ano, com uma média de quatro filhotes por ninhada, e as fêmeas atingem maturidade reprodutiva em seis meses de idade.

Ahhh!! Mas as capivaras são nativas!! Dirão alguns.

Sim. Mas, pelo visto, estamos valorizando tão somente o valor estético da novidade na paisagem urbana, acreditando que isso seja ecologia.

Começa sempre assim: valorização de aspectos pitorescos e da novidade, depois vem a “conta” com a realidade e os problemas de saúde pública.

Capivaras são as hospedeiras preferidas do carrapato-estrela, que transmite a febre maculosa, doença extremamente perigosa, entre outras.

Lembrem-se: as capivaras não são vacinadas de nada!!

Os locais onde as capivaras frequentam não são recomendados para sentar-se na grama, de forma a expor principalmente crianças e idosos.

Banhar-se no rio também é alto risco, pois elas têm o costume de defecar e urinar na água, o que aumenta sobremaneira os riscos de contaminação em humanos.

Os espaços urbanos não são ambientes naturais, são jardins construídos artificialmente.

Nós precisamos de um ambiente limpo e profilático e, por mais ecológicos que queiramos ser, o nosso ambiente só é parecido com o natural, pois requer muita limpeza e assepsia.

Se não aprendermos com nossos erros, estamos nos credenciando para errar novamente e depois pagar caro pelas consequências.

* Rogério Pons da Silva

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