Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Número de produtos abandonados nos carrinhos dos supermercados chega a quase cinco milhões

Cresceu nos últimos meses o número de brasileiros que não consegue levar para casa toda a comida que escolhe e coloca no carrinho do supermercado. O corte na compra, impulsionado pela alta de preços dos alimentos, acontece na boca do caixa, quando o valor da conta passa do previsto. Entre janeiro e junho deste ano, 4,997 milhões de itens, que vão do básico, como óleo de soja e açúcar, ao supérfluo, como refrigerante e cerveja, foram abandonados. É um volume quase 16,5% maior em relação ao primeiro semestre do ano passado, ou 704,9 mil itens a mais barrados na boca do caixa, revela uma pesquisa inédita feita pela Nextop.

Por meio de inteligência artificial e de um grande banco de dados, foram extraídas informações autorizadas do movimento de caixa de 982 supermercados de médio e pequeno porte do País. A amostra inclui estabelecimentos que atendem a todas as faixas de renda e que juntos faturam R$ 5 bilhões anuais.

Para chegar ao volume de produtos que deixou de ser comprado, Juliano Camargo, CEO e fundador da empresa, reuniu itens cancelados, isoladamente e também cupons fiscais inteiros, com aqueles produtos que o consumidor consultou o preço no caixa e desistiu da compra antes de registrar no ponto de venda.

“Um crescimento de 16,42% na quantidade de itens abandonados é altíssimo e reflete que muita gente deve estar tomando susto”, afirma Camargo. Apesar de não ter uma série histórica longa desses dados, pela experiência acumulada no setor, ele acredita que a quantidade de itens devolvidos na boca do caixa não teria aumentado, se a inflação de alimentos estivesse controlada.

Em julho, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), apurado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou deflação de -0,68%, por causa dos corte de impostos nos combustíveis e na eletricidade. No entanto, os preços da comida continuaram subindo e a inflação do grupo alimentação acelerou, indo de uma aumento 0,80% em junho para 1,30% em julho. Neste ano até julho, os alimentos subiram 9,83% e, em 12 meses, 14,72%, ante o IPCA de 4,77% e 10,07%, respectivamente, acumulado em igual período.

O presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar), o economista Claudio Felisoni de Angelo, também atribui esse aumento de volume de produtos devolvidos à disparada da inflação nos últimos meses e ressalta a clareza desse indicador. “O tamanho da pilha de produtos deixados no caixa pelo consumidor é a medida concreta do tamanho da crise que vivenciamos hoje”, afirma. Ele argumenta que resultados revelados normalmente pelos indicadores de inflação, renda e emprego, têm uma dimensão mais abstrata.

Além do pouco dinheiro no bolso que leva o consumidor a desistir da compra na reta final, o presidente do Ibevar acrescenta que a perda de referência de preços provocada pela aceleração da inflação combinada com falta de clareza das lojas para passar essa informação aos clientes podem contribuir para desistência da compra.

Básicos e supérfluos

“O carrinho que fica está refletindo a inflação e pega pobres e ricos, com itens básicos e supérfluos”, observa Camargo. Ele faz essa afirmação com base num ranking de produtos mais devolvidos no primeiro semestre deste de ano.

Quem lidera a lista é o refrigerante, seguido pelo leite, óleo de soja, cerveja e açúcar. Dos dez itens que mais sobraram na boca do caixa, quatro são básicos – leite, óleo de soja, açúcar e farinha de trigo – e seis não tão essenciais – refrigerante, cerveja, molhos, biscoitos, hambúrguer e bebida láctea.

A cerveja puxa a fila dos itens com maiores quedas de venda em volumes apurada pela consultoria NielsenIQ com -15,6%, seguida pelo leite (-13,7%), cortes de frango (-11,6%), café em pó (-8,5%), legumes (-8,2%), óleo comestível (-7%), queijos (-6,5%), biscoitos (-5,1%), industrializados de carne (-2,8%) e cortes bovinos (-2,7%). Não por acaso, vários desses produtos estão entre os que mais registram altas de preços nos últimos meses, como leite, café, óleo, carnes, biscoitos, por exemplo, segundo o IPCA, a medida oficial da inflação do País.

A freada brusca do consumidor na reta final das compras provoca um efeito em cascata na cadeia de abastecimento. O encalhe faz com que os supermercados comprem volumes menores das indústrias e esfriem o ritmo de produção e atividade. “Hoje o nível de estoques dos supermercados é o mais baixo dos últimos anos”, diz Camargo.

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