Domingo, 13 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 12 de setembro de 2026
O Uppsala Conflict Data Program, uma das principais bases sobre conflitos armados, registrou no ano passado 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado, o recorde desde o final da 2ª Guerra Mundial, em 1945. As mortes cresceram mais de 30% em um ano. Mas a violência não recrudesceu por igual. O Sudão respondeu pela explosão das mortes de civis, ao mesmo tempo que conflitos entre grupos não estatais recuaram. Por outro lado, em apenas dois anos, os conflitos entre Estados saltaram de dois para oito.
Na Europa, a mudança ganhou contornos antes disso. A anexação da Crimeia pela Rússia em 2014 mostrou que uma fronteira podia novamente ser alterada pela força. A invasão russa da Ucrânia em 2022 submeteu a teste muito maior a disposição do Ocidente de sustentar os agredidos. Moscou descobriu que europeus e americanos forneceriam armas, dinheiro e inteligência em escala, mas evitariam combater uma potência nuclear. Quatro anos depois, os limites continuam sendo apurados no campo de batalha.
Logo após o fim da guerra fria, esses testes pareceram menos atraentes. A chamada Pax Americana esteve longe de ser uma era de paz, mas combinou uma excepcional superioridade dos EUA com a arquitetura de alianças, bases, instituições e compromissos que construíra desde 1945. Parte do êxito era invisível: uma garantia que dissuade um ataque não precisa ser acionada; uma fronteira que ninguém atravessa não vira manchete. A previsibilidade podia assim ser confundida com uma propriedade natural do sistema internacional.
Essa arquitetura está sob pressão. A Rússia tenta rasurar a ordem territorial da Europa e testa seus nervos com provocações híbridas. A ascensão da China mudou a distribuição de poder sem arrancá-la de uma economia global que ajudou a enriquecê-la. No Oriente Médio, a guerra com o Irã rompeu limites que por décadas canalizaram a hostilidade para milícias aliadas e confrontos indiretos. Os EUA continuam sendo a potência militar preeminente, mas sua política também produz instabilidade. Ao questionar alianças e compromissos, o presidente americano Donald Trump deprecia ativos que multiplicaram o próprio poder de seu país.
Redistribuir poder é mais rápido do que estabelecer regras que acomodem a nova distribuição. Nos anos 1930, sucessivos desafios expuseram a distância crescente entre as regras existentes e a disposição das potências para sustentá-las. Cada teste mal contido tornou o seguinte mais tentador. A guerra fria seguiu outra trajetória. Depois de crises que resvalaram na catástrofe, Washington e Moscou aprenderam limites, criaram canais de comunicação e pactuaram controles de armas. Continuaram inimigos, mas redigiram uma gramática de dissuasão que minimizou os riscos de colisão direta.
O presente não reproduz nenhum desses períodos. Há mais centros de decisão do que na guerra fria e interdependência econômica muito maior do que nos anos 1930. A multiplicidade de arsenais nucleares desencoraja uma guerra entre potências – embora torne qualquer erro de cálculo incomparavelmente mais perigoso. Talvez “interregno” descreva esse intervalo: a velha arquitetura ainda existe, porém organiza as expectativas com menos segurança, enquanto nenhuma outra adquiriu autoridade para substituí-la.
A Europa mostra como erosão e recomposição podem avançar juntas. A agressão russa levou a Finlândia e a Suécia à Otan e acelerou o rearmamento. Persistem, porém, carências militares e industriais, enquanto as incertezas plantadas por Trump abalam o coração da dissuasão transatlântica. Capacidade militar e credibilidade política nem sempre caminham juntas. Pequim observa essas respostas ao calcular seus riscos em Taiwan, onde o êxito da dissuasão depende de evitar o experimento que revelaria até onde cada lado está disposto a ir.
O recorde de conflitos ocorre, portanto, num momento inquietante. A unipolaridade acabou, mas a distribuição de poder que emerge em seu lugar ainda não encontrou limites suficientemente reconhecidos e críveis. É nesse intervalo que potências medem compromissos, sondam adversários e calculam se devem recuar ou dobrar a aposta. Um sistema se torna especialmente perigoso quando a maneira mais confiável de descobrir onde termina a liberdade de ação de um país é avançar até que outro o detenha. (Opinião/O Estado de S. Paulo)