Sexta-feira, 19 de agosto de 2022

Onda de calor na Europa: entenda as causas e a relação com a crise do clima e o aquecimento dos polos

A Europa vive uma nova onda de calor com recordes de temperatura e tempo seco. A causa é um sistema de alta pressão (leia mais abaixo), fenômeno recorrente no planeta. Há uma relação direta com o aquecimento global? E com o aquecimento dos polos?

Um cenário de recordes

O Reino Unido atingiu, nesta terça-feira (19), a temperatura mais alta da história, segundo o serviço nacional de meteorologia (Met Office). Os termômetros nos arredores do aeroporto de Heathrow, em Londres, marcaram 40,2°C.

Na França, a temperatura deve passar de 40ºC em Paris, uma marca rara na cidade. Enquanto isso, incêndios continuam a consumir a costa atlântica do país.

Já em Portugal e na Espanha, até agora, mais de mil pessoas morreram por causa do calor.

Em abril, a Índia e o Paquistão passaram por uma onda de calor que chegou a registrar temperaturas de quase 50ºC.

Como surge uma onda de calor?

Marcelo Seluchi, doutor em meteorologia e coordenador-geral de operações e modelagem do Centro de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), explica que a causa dessas temperaturas extremas registradas na Europa é uma área de alta pressão atmosférica (situação de bloqueio) muito intensa e que está estagnada há vários dias.

“Não é toda alta pressão que causa isso. Chama-se bloqueio justamente porque fica totalmente bloqueada e não sai dali. Quando isso ocorre numa época de verão, causa onda de calor”, completa Seluchi.

Com isso, o ar fica estável e a umidade baixa, diminuindo as chances de chuva. No verão europeu, os dias são mais longos e as noites mais curtas, o que facilita o aumento de temperatura.

“O solo aquece facilmente porque está muito seco e, com as poucas horas no período da noite, ele esfria menos. Com isso, cada dia que passa a temperatura vai aumentando mais um pouco”, diz Seluchi.

Além disso, o sistema de alta pressão está carregando os ventos do Norte da África, do Deserto do Saara, para a Europa e, por isso, o ar se torna cada vez mais quente e seco.

É tudo culpa do aquecimento global?

O especialista explica que as ondas de calor são fenômenos naturais do planeta e já existiam antes das mudanças climáticas. Por outro lado, as evidências científicas – classificadas como “alto grau de confiança” – dizem que os eventos extremos vão se repetir cada vez mais.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) aponta que o aumento da frequência, duração e intensidade desses eventos nas últimas décadas está claramente ligado ao aquecimento observado do planeta e pode ser atribuído à atividade humana.

“Nós sabemos que nos cenários de aquecimento global as temperaturas vão aumentando e as ondas de calor serão mais frequentes. Coincidentemente, estamos observando uma delas. É difícil dizer se esta onda em particular é, isoladamente, culpa do aquecimento global. Mas ela se insere em um cenário de mudanças do clima”, disse Seluchi.

Nesse cenário, o Met Office, órgão do Reino Unido, estima que a probabilidade de haver calor extremo na Europa aumentou em dez vezes.

“A mudança climática já influenciou a probabilidade de extremos de temperatura no Reino Unido. As chances de ver 40ºC no Reino Unido podem ser até 10 vezes mais prováveis no clima atual do que sob um clima natural não afetado pela influência humana”, afirmou Nikos Christidis, cientista climático do Met Office.

Um dos pontos que aumentam a vulnerabilidade da região é que a Europa é um grande bloco continental. A terra aquece e esfria mais do que o mar – a água tende a conservar melhor a temperatura. Em relatório especial publicado em 2019, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) já apontava que as áreas continentais têm um aumento mais acentuado do calor do que as oceânicas.

“O maior aquecimento deve ocorrer no Hemisfério Norte e nas áreas continentais. Exatamente onde está ocorrendo essa onda de calor. Está dentro do que se espera de um cenário de mudanças climáticas”, afirma Seluchi.

Além disso, um outro fator que influencia para a criação dos eventos extremos é o aquecimento dos polos. Em março deste ano, a Antártica e o Ártico registraram recordes de temperatura na mesma semana – os extremos da Terra apresentaram um calor pelo menos 30ºC maior do que a média para o período.

O meteorologista explica que os sistemas meteorológicos que causam a alternância entre períodos mais secos e mais chuvosos, e entre mais quentes e mais frios, são conduzidos pelos ventos nos altos níveis da atmosfera.

“Estes ventos são quase sempre de oeste, tanto no Hemisfério Norte quanto no Hemisfério Sul. A velocidade depende da diferença de temperatura entre o Equador e os polos”, diz.

Segundo Seluchi, quando a diferença de temperatura entre Equador e polos é maior, os ventos são do oeste. Se ela diminui, com mais calor nos extremos do planeta, há um aumento dos ventos do Norte e do Sul – e isso favorece as ondas de calor e frio.

“Isso significa que a diferença de temperatura entre o polo e o Equador vai diminuir, porque vai aquecer mais as altitudes altas. Neste cenário, os ventos de oeste se tornam mais fracos, porém ganham força os ventos de norte e de sul que levam ondas de calor e ondas de frio”, explica o especialista.

O verão no Brasil vai ser mais quente também?

Não necessariamente.

José Marengo, climatologista e coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento Cemaden, explica que os hemisférios trabalham de forma independente, apesar da existirem algumas trocas de ar e de ventos. Um verão mais quente na Europa não significa que a estação será mais acentuada no Brasil.

“Realmente, como o Hemisfério Sul é mais água que continente, os impactos de calor são mais fortes na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia”, explica o especialista.

No entanto, os eventos extremos também são sentidos no Hemisfério Sul – a seca no Pantanal e as fortes chuvas sentidas em diferentes estados do Brasil no primeiro trimestre são exemplos do que ainda está por vir.

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