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Por Redação do Jornal O Sul | 15 de abril de 2023
Nos seus primeiros meses no cargo, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva se recusou a condenar a invasão russa da Ucrânia, permitiu que navios de guerra iranianos atracassem no Rio de Janeiro e enviou um representante de alto escalão para se reunir com o ditador venezuelano Nicolás Maduro.
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva contra Jair Bolsonaro, que se alinhou ao ex-presidente Donald Trump e à direita global, trouxe otimismo ante a possibilidade de o país mais populoso da América Latina ser um parceiro na promoção das normas democráticas no Ocidente e além.
Mas, em vez disso, Lula está lembrando o mundo da sua abordagem para a política externa do Brasil – que, condizente com seus primeiros mandatos, dá prioridade ao pragmatismo e ao diálogo, mostrando pouca preocupação com a possibilidade de contrariar Washington ou o Ocidente.
Um exemplo: Lula se recusou a participar da condenação quase universal à invasão russa. O Brasil defendeu uma resolução das Nações Unidas no mês passado pedindo paz e exigindo que Moscou retirasse suas tropas da Ucrânia. Mas, semanas depois, o mandatário brasileiro se recusou a assinar uma declaração da Cúpula pela Democracia, do presidente Joe Biden, condenando o ataque da Rússia ao país vizinho.
Em comparação com o isolacionismo beligerante de Bolsonaro, Lula há muito busca expandir o papel do Brasil no palco mundial. Defende, por exemplo, que o país seja membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
“O Brasil deseja reformar a governança global”, disse Celso Amorim, assessor especial do presidente, ao Washington Post. “Gostaríamos de um modelo de governança que não se pareça com o atual Conselho de Segurança.”
Multipolar
Enquanto presidente entre 2003 e 2010, Lula buscou uma ordem mundial multipolar que apoiaria as economias de crescimento mais rápido do mundo sem exigir delas que adotassem determinados valores políticos. Em 2009, ele participou da primeira cúpula dos Brics (em contraposição ao G-7), que criaram em 2015 sua própria instituição financeira, o Novo Banco de Desenvolvimento, como alternativa ao Fundo Monetário Internacional.
China e Brasil retrataram seus laços mútuos – e com a Rússia – como sendo de crescente importância global. O embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, descreveu os Brics como “um catalisador de mudanças no sistema global de governança”.
No momento, nenhum dos países dos Brics impõe sanções à Rússia. O aumento no comércio entre Rússia e China em particular ajudou a reduzir parte do impacto das sanções ocidentais, e Pequim aproveitou as condições para pressionar mais empresas a adotar o yuan em suas transações – em alguns casos inclusive possibilitando a elas evitar completamente o dólar.
O Brasil depende da Rússia como seu principal fornecedor de fertilizantes para o setor agrícola, que abastece suas crescentes exportações para a China.
A mídia estatal em Pequim informou que uma filial brasileira de um banco pertencente ao estado chinês completou sua primeira transação internacional na moeda chinesa. O Banco Central do Brasil anunciou este mês que o yuan ultrapassou o euro enquanto segunda principal moeda de suas divisas internacionais.
“Cada vez mais, vemos a capacidade da China de atuar como alternativa viável e desenvolver alianças diplomáticas que sublinham isso”, disse Margaret Myers, diretora do programa para Ásia e América Latina no centro de estudos estratégicos Inter-American Dialogue, em Washington. “Os Brics desempenham cada vez mais esse papel, e Lula, como um dos fundadores do grupo, terá a inclinação de reforçar essa visão.”
Durante uma reunião virtual em março com o presidente ucraniano Volodmir Zelensky, Lula reiterou seus apelos recentes pela criação de um “clube da paz” formado por países não alinhados para mediar o conflito entre Rússia e Ucrânia. A ideia não ganhou muita força em Washington quando ele visitou Biden em fevereiro.
Pequim celebrou a visita de Lula como oportunidade não apenas de aprofundar os laços econômicos entre os dois países, mas também de avançar a campanha de Xi Jinping na busca para posicionar a China como líder de uma ordem mundial que não seja limitada por Washington. Essa campanha inclui a articulação de 12 princípios para o fim das hostilidades na Ucrânia.
Mediador
Lula promoveu a si mesmo como potencial mediador entre Moscou e Kiev.
Este mês, ele enviou Amorim para se reunir com o presidente russo Vladimir Putin em Moscou. Antes da viagem, Amorim disse ao Post acreditar que uma solução diplomática para a guerra seria possível.
Mas, indagado se o Brasil desempenharia um papel na imposição das normas democráticas, Amorim respondeu: “Imposição é uma palavra ruim”.