Quarta-feira, 17 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 17 de junho de 2026
Entre cicatrizes e recomeços, o desafio de não permitir que a insegurança determine nossos próximos passos
O Vale do Taquari carrega marcas que dificilmente serão apagadas pelo tempo. As enchentes deixaram rastros visíveis nas cidades, nas empresas, nas propriedades e na infraestrutura. Mas algumas das marcas mais profundas não estão nos prédios reconstruídos nem nas estradas recuperadas. Elas permanecem silenciosamente dentro das pessoas.
Recentemente, conversando com empresários da região, ouvi uma história que representa muitas outras. Trata-se de uma mulher que viu seu negócio ser destruído pelas águas. Como tantos outros empreendedores, precisou começar praticamente do zero. Encontrou apoio na comunidade, nas entidades empresariais, em amigos e clientes. Trabalhou incansavelmente para reconstruir sua empresa e, contra muitas expectativas, conseguiu se reerguer.
Dois meses após a catástrofe de maio de 24, seu negócio voltou a operar. Desde então, ela consegue sustentar sua família, manter sua equipe, cumprir seus compromissos e até formar uma reserva financeira. Sob qualquer análise racional, trata-se de uma história de sucesso e superação.
Mas algo mudou.
As dificuldades econômicas, as incertezas naturais que antecedem períodos eleitorais e as notícias sobre possíveis novos eventos climáticos extremos começaram a ocupar espaço em seus pensamentos. O medo voltou a bater à porta. Não o medo imediato da tragédia, mas um medo mais sutil e talvez mais perigoso: o medo do futuro.
É curioso perceber como o medo possui a capacidade de alterar nossa percepção da realidade. Quando ele se instala, muitas vezes deixa de importar o que está acontecendo e passa a importar apenas o que poderia acontecer. O presente perde força diante das hipóteses desastrosas do amanhã. E é exatamente nesse ponto que o medo começa a enfraquecer a FÉ. Não a FÉ necessariamente ligada à religião, mas a FÉ entendida como confiança.
Confiança na própria capacidade, nos aprendizados adquiridos, na força construída ao longo do caminho e na possibilidade de continuar avançando apesar das incertezas.
Toda atividade empresarial exige uma dose de FÉ. Quem investe acredita. Quem contrata acredita. Quem abre as portas todas as manhãs acredita. Nenhum empreendedor possui garantias absolutas sobre o futuro. O que existe é a convicção de seguir construindo mesmo sem conhecer completamente o que virá pela frente.
Quando o medo passa a dominar as decisões, a dinâmica muda. Projetos são adiados. Investimentos deixam de acontecer. O crescimento é interrompido. A inovação perde espaço para a proteção excessiva. Aos poucos, a sobrevivência passa a substituir o desenvolvimento.
Esse fenômeno não acontece apenas com indivíduos. Ele pode atingir comunidades inteiras.
Uma população exposta continuamente a mensagens de insegurança, catástrofes e incertezas pode começar a desenvolver uma espécie de paralisia coletiva. As pessoas passam a enxergar mais riscos do que oportunidades. A prudência, que é necessária, transforma-se em receio permanente. E o receio permanente transforma-se em estagnação.
Talvez o maior aprendizado que as enchentes tenham deixado ao Vale do Taquari seja justamente o contrário.
Quando tudo parecia perdido, foi a confiança que moveu as pessoas. Foi a FÉ na reconstrução que fez empresários reabrirem suas portas. Foi a crença na comunidade que mobilizou voluntários, entidades e lideranças. Foi a esperança que permitiu que milhares de famílias encontrassem forças para recomeçar.
O medo é natural. Ignorá-lo seria irresponsável. Mas permitir que ele conduza nossas escolhas pode ser ainda mais perigoso do que os desafios que tentamos evitar.
O futuro continuará carregando incertezas. Sempre carregou. A diferença está em decidir se serão as cicatrizes do passado ou a coragem construída a partir delas que determinarão os próximos passos.
O Vale do Taquari já demonstrou ao Brasil sua capacidade de reconstrução. Talvez agora o desafio seja outro: reconstruir, todos os dias, a confiança de que o amanhã continua merecendo ser construído e que somos um povo de FÉ.
Que os oportunistas passem longe e que os trabalhadores da Luz operem em nosso favor. Que assim seja!

* Juliana de Vasconcelos – presidente ACISAM – Associação Comercial, Industrial e de serviços de Arroio do Meio/RS e co-fundadora do Grupo Front