Terça-feira, 09 de junho de 2026

Quando o problema não está no crime, mas na ideia

Há cerca de três meses escrevi um texto nesta mesma página sobre feminicídios. Naquele momento, o Rio Grande do Sul contabilizava aproximadamente vinte mulheres assassinadas em razão de sua condição feminina. Já era um número assustador. Hoje, enquanto escrevo estas linhas, esse número chegou a trinta e oito.

De lá para cá, quase duas dezenas de novas histórias foram interrompidas. Novas famílias foram devastadas. Novas crianças ficaram sem mães. Novos amigos e parentes receberam a notícia que ninguém gostaria de receber.

A pergunta que permanece é a mesma: por que isso continua acontecendo?

É muito comum que, diante de cada novo caso, se busquem explicações. Falamos em ciúme, alcoolismo, desequilíbrio emocional, dificuldades financeiras ou em transtornos psicológicos. Tudo isso pode estar presente em determinados episódios. Mas talvez o problema seja mais profundo.

Há décadas, o psicólogo Elliot Aronson tenta responder a uma pergunta que inquieta qualquer sociedade: como pessoas aparentemente normais acabam praticando atos de extrema crueldade? Em “O Animal Social”, obra que se tornou referência mundial, ele mostra que nossas atitudes nem sempre nascem apenas de escolhas individuais. Essas atitudes, por vezes, são provenientes do ambiente cultural em que vivemos, das crenças que nos são passadas e que aprendemos a considerar como normais e aceitáveis.

Por isso, o feminicídio não pode ser tratado apenas como um problema policial ou jurídico.

Nenhum homem nasce acreditando que possui direitos sobre a vida de uma mulher. Essa ideia é construída. Ela pode surgir em pequenas frases repetidas durante anos, em exemplos observados dentro de casa, em comportamentos naturalizados por gerações ou em uma cultura que ainda confunde afeto com posse e relacionamento com controle.

Aronson também demonstrou que tendemos a justificar comportamentos contraditórios para preservar a imagem que fazemos de nós mesmos. É o fenômeno da chamada “dissonância cognitiva”. Assim, alguém incapaz de aceitar o fim de uma relação pode criar para si uma narrativa distorcida em que a vítima passa a ser vista como culpada pela própria violência que sofre.

É um mecanismo perverso. O agressor deixa de enxergar a outra pessoa como um ser humano autônomo e passa a vê-la como extensão de seus desejos, de suas frustrações ou de seu orgulho ferido.

Talvez por isso o enfrentamento do feminicídio exija uma reflexão que vá além do aumento de penas ou da criação de novas figuras penais. Leis rigorosas são indispensáveis. A atuação policial eficiente é fundamental. Medidas protetivas salvam vidas. Mas nenhuma dessas providências consegue, sozinha, alterar mentalidades construídas ao longo de décadas.

As mudanças mais profundas costumam ser também as mais lentas.

É preciso ensinar desde cedo que respeito não é uma obrigação jurídica, mas uma forma de convivência. Que meninos e meninas possuem igual dignidade. Que ninguém é dono dos sentimentos de outra pessoa. Que o amor não se mede pelo controle, mas pela liberdade.

Essas conversas deveriam começar na pré-escola e acompanhar toda a formação educacional. Não como doutrinação ideológica, mas como educação para a cidadania, para a empatia e para o reconhecimento da humanidade do outro.

Aronson costuma lembrar que os seres humanos são profundamente influenciados pelo ambiente social. A boa notícia é que isso vale tanto para o mal quanto para o bem. Se uma cultura é capaz de ensinar preconceitos e formas de violência, também é capaz de ensinar respeito, cooperação e responsabilidade.

Os trinta e oito feminicídios registrados neste ano não são apenas números. São vidas interrompidas. São ausências que permanecerão para sempre.

E talvez a principal lição seja justamente esta: quando uma sociedade chega ao ponto de contar mulheres mortas uma a uma, o problema já não está apenas nos criminosos. Está também nas ideias que, por muito tempo, permitimos sobreviver entre nós.

Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br

 

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