Quinta-feira, 09 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 9 de julho de 2026
Há livros que parecem pertencer apenas ao seu tempo. São importantes quando publicados, ajudam a explicar uma época e, depois, vão repousar nas bibliotecas. Outros fazem o caminho inverso. Quanto mais os anos passam, mais perguntas despertam. Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, é um deles.
Escrito em 1933, o livro não nasceu para agradar. Numa época em que ainda havia quem enxergasse a miscigenação como um defeito nacional, Freyre ousou afirmar exatamente o contrário. Disse que o Brasil não poderia ser compreendido sem reconhecer a contribuição decisiva de africanos, indígenas e europeus para a construção de uma identidade comum. Não era pouco. Era uma mudança de lente.
Quase um século depois, talvez a maior qualidade da obra seja justamente não oferecer respostas prontas. Ela continua provocando uma pergunta incômoda: quanto daquele Brasil ainda permanece vivo?
Não me refiro às antigas fazendas, aos engenhos ou às relações senhoriais descritas por Freyre. Esse país desapareceu. A escravidão tornou-se página da História, a Constituição elevou a igualdade à condição de fundamento da República e seria desonesto negar o quanto o Brasil mudou. Basta olhar em volta para perceber uma sociedade muito mais aberta, mais diversa e infinitamente mais plural do que aquela em que nossos bisavós viveram.
Mas o passado raramente desaparece por completo. Ele costuma sobreviver de formas mais discretas.
Nenhuma sociedade atravessa mais de trezentos anos de escravidão e desperta, de uma geração para outra, completamente livre das marcas que ela deixou. As leis mudam com relativa rapidez; as mentalidades, nem tanto. Os hábitos sociais, menos ainda.
Talvez seja por isso que o debate sobre desigualdade continue tão atual. Não porque exista uma barreira jurídica impedindo alguém de estudar, empreender ou ocupar cargos públicos. Felizmente, essa barreira caiu há muito tempo. A questão é outra. Alguns ainda percorrem caminhos mais longos do que outros para chegar ao mesmo destino.
Quem conversa com pessoas de diferentes origens percebe isso com facilidade. Há histórias extraordinárias de superação. Homens e mulheres que romperam limites impostos pela pobreza, pelo preconceito ou simplesmente pela falta de oportunidades. Essas trajetórias merecem admiração justamente porque exigiram esforço incomum. E talvez aí resida a pergunta mais importante: por que, para alguns brasileiros, vencer continua sendo um percurso muito mais árduo?
Não há resposta simples.
Durante muitos anos, gostamos de repetir que o Brasil era uma democracia racial. Afinal, éramos um povo miscigenado, convivíamos sem leis de segregação e compartilhávamos uma cultura profundamente mestiça. Tudo isso é verdade. O problema é imaginar que a mistura, por si só, resolveria desigualdades construídas ao longo de séculos.
Misturar pessoas nunca significou, automaticamente, repartir oportunidades.
É possível celebrar a riqueza da formação cultural brasileira e, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda existem diferenças persistentes no acesso à educação de qualidade, à renda, aos espaços de influência e às posições de comando. Uma constatação não elimina a outra. Ao contrário, elas convivem.
Talvez esse seja o maior legado de Casa-Grande & Senzala. Não a ideia de que vivemos em perfeita harmonia, nem a conclusão oposta de que nada mudou desde a Abolição. O livro continua valioso porque nos lembra que a identidade brasileira nasceu de encontros, mas também de profundas assimetrias de poder. Ignorar qualquer uma dessas dimensões é contar apenas metade da história.
Quase cem anos depois, o Brasil já não possui casa-grande nem senzala. Possui condomínios, periferias, universidades, empresas, repartições públicas, redes sociais e uma sociedade muito mais complexa do que aquela descrita por Gilberto Freyre. Ainda assim, vez ou outra, percebemos que algumas portas parecem se abrir com mais facilidade para uns do que para outros.
Talvez seja essa a herança mais difícil de superar. Não a do preconceito declarado, que a lei combate e a sociedade condena, mas a das desigualdades silenciosas, que se reproduzem quase sem serem percebidas.
Ler Gilberto Freyre hoje continua sendo um exercício de humildade intelectual. Não porque ele tenha explicado definitivamente o Brasil, mas porque nos recorda que compreender um país é tarefa que nunca termina. Cada geração volta às mesmas páginas e encontra perguntas diferentes. Talvez seja esse o destino dos grandes livros: envelhecer sem perder a capacidade de nos inquietar.
Amílcar Fagundes Freitas Macedo – gabinete-amilcar@tjmrs.jus.br