Terça-feira, 15 de setembro de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 15 de setembro de 2026
Talvez um dos maiores desencontros dentro de um casamento não aconteça porque o amor acabou. Acontece porque, muitas vezes, cada um está tentando oferecer ao outro aquilo que gostaria de receber.
E aí começa a confusão. Ele pensa: “Eu trabalho, me esforço, resolvo as coisas, estou fazendo a minha parte”.
Ela pensa: “Mas eu queria que ele percebesse que estou cansada, que perguntasse como estou, que cuidasse de mim nos detalhes”.
Ele acredita que está demonstrando amor. Ela não se sente amada. Ela acredita que está demonstrando preocupação. Ele sente que está sendo cobrado.
E, aos poucos, aquilo que começou como uma tentativa de cuidar transforma-se em uma disputa silenciosa para provar quem está fazendo mais.
Na clínica, observo algo que aparece com frequência: muitos homens precisam sentir-se respeitados para conseguirem se abrir verdadeiramente às necessidades da esposa. E muitas mulheres precisam sentir-se seguras dentro da relação para conseguirem experimentar paz.
Não estou falando de regras. Homens e mulheres são diferentes, mas também são profundamente singulares. Há mulheres que precisam de admiração, homens que precisam de segurança, mulheres que desejam reconhecimento e homens que precisam sentir acolhimento.
O que realmente importa é descobrir qual é a linguagem emocional daquele que escolhemos para caminhar ao nosso lado. Para muitos homens, saber que seus esforços são percebidos faz diferença.
Não significa colocar o marido num pedestal, muito menos aceitar comportamentos inadequados em nome da masculinidade. Significa reconhecer que respeito, consideração e admiração podem ser portas importantes para a conexão.
Um homem que se sente respeitado tende a baixar a defesa. E, quando baixa a defesa, talvez consiga ouvir melhor.
Do outro lado, muitas mulheres precisam sentir que podem confiar. Não apenas confiar que o marido não vai embora.
Mas confiar que podem descansar emocionalmente naquela relação. Que não precisam carregar tudo sozinhas. Que existe parceria. Que suas dores serão ouvidas. Que seus sentimentos importam.
Uma mulher que se sente segura não precisa permanecer o tempo inteiro em estado de alerta. E quando a mulher encontra segurança, pode surgir algo precioso: paz.
Também existe outra diferença que frequentemente aparece: ele pode precisar perceber que é admirado; ela pode precisar sentir que é prioridade.
Ele pode querer que seus esforços sejam reconhecidos. Ela pode desejar ser amada nos detalhes.
Um pode pensar no grande gesto. O outro pode esperar pelo pequeno cuidado.
E nenhum dos dois está necessariamente errado. O problema começa quando cada um conclui:
“Se ele me amasse, saberia.”
Não. Talvez, não soubesse.
Porque ninguém consegue entregar aquilo que nunca aprendeu que o outro precisava receber. Casamento exige mais do que boa intenção. Exige curiosidade.
“Como você se sente amado por mim?”
“O que faz você se sentir seguro nesta relação?”
“O que eu faço que faz você se sentir respeitado?”
“O que está faltando entre nós?”
Perguntas simples podem revelar necessidades que anos de cobrança não conseguiram explicar. Porque relacionamento saudável não é aquele em que duas pessoas pensam igual, sentem igual ou precisam das mesmas coisas.
É aquele em que duas pessoas aprendem a traduzir o próprio amor para a linguagem emocional do outro.
E, talvez, seja justamente aí que o casamento deixe de ser uma disputa para descobrir quem está certo e comece a se transformar em parceria.
Você não precisa se contentar com menos do que merece. Mas também não precisa esperar que o outro adivinhe aquilo que você nunca conseguiu dizer.
Amar é também aprender. Aprender a ouvir. Aprender a reconhecer. Aprender a cuidar.
E, principalmente, aprender que aquilo que para mim parece pequeno pode ser exatamente aquilo que faz o outro se sentir profundamente amado.
Até a próxima consulta.
* Tatiane Scotta, psicóloga, sexóloga e palestrante