Segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Adeus, meu amigo tóxico

Pois é, meu amigo. Parece que foi ontem que a gente se conheceu…

Você era o sujeito mais popular da escola. As garotas te adoravam e, convenhamos, quem andava contigo acabava levando alguma vantagem…

Você tinha um charme natural, uma espécie de magnetismo. E eu confesso: talvez tenha me aproximado de você porque também queria um pouco daquele efeito.

Depois vieram as festas, as baladas, as viagens para a praia. Você nunca foi muito do surfe, é verdade. Preferia me esperar do lado de fora. Mas, na hora da bebida, de um bom café ou de uma conversa sem hora para terminar, estava sempre comigo, me ajudando a relaxar quando era preciso…

E não quero que ninguém diga que você foi apenas amigo das horas boas. Você esteve presente em alguns dos momentos mais difíceis da minha vida. E também nos mais criativos.

Nas madrugadas infindáveis de trabalho, ao lado de uma xícara de café e na solidão, sua companhia fez parte de muitas páginas da minha vida…

Talvez algumas das melhores crônicas que escrevi tenham nascido justamente nesses encontros silenciosos entre nós dois…

Nossa parceria, em certos momentos, chegava a ser quase poética. Mas preciso te confessar uma coisa. A minha juventude acabou. E ainda bem…

Com o tempo, mudei conceitos, abandonei alguns excessos e amadureci valores. Hoje, aos 58 anos, até acho que estou razoavelmente bem. Mas também sei que a tua influência vem me prejudicando há muito tempo.

Devagar, silenciosamente. E talvez possa chegar o momento em que o prejuízo deixe de ser apenas uma ameaça. Mas essa história também teve seu preço.

Você também esteve comigo em muitas das minhas loucuras. Nos excessos, nas noites intermináveis, nas decisões que pareciam brilhantes de madrugada e absolutamente idiotas no dia seguinte.

Juntos, aprontamos muito por aí. Talvez seja sorte, ou condescendência do universo, termos chegado vivos até aqui.

Muita gente me avisou que você me fazia mal, que podia ser traiçoeiro… Eu nunca quis ouvir…

Porque você é complicado, meu amigo. Ao mesmo tempo em que foi parceiro da poesia, da reflexão e das conversas comigo mesmo, também me acompanhou por caminhos onde eu talvez não devesse ter ido.

Mas tudo na vida tem um tempo… Até as relações que pareciam inseparáveis.

Por isso, justamente hoje, no dia do meu aniversário, resolvi me despedir de você. Não sem gratidão. Seria hipocrisia negar que houve um lado lúdico nessa história.

Obrigado pelas festas, pelas mulheres, pelas resenhas, pelas bebedeiras, pelos churrascos e, principalmente, pelas madrugadas em que ficamos juntos olhando o mundo enquanto eu tentava transformá-lo em palavras.

Vou sentir tua falta… Principalmente naquela hora do café. Na solidão da madrugada…

Nos momentos em que a cabeça pede silêncio e alguma companhia. Também não serei cínico. Sei que ainda vamos nos encontrar muitas vezes. Temos amigos em comum…

Vou cruzar contigo em festas, bares, esquinas e mesas de café. Talvez eu até sinta vontade de sair contigo outra vez e, provavelmente, em alguns momentos, devo ceder…

Mas vou precisar lembrar que nosso ciclo terminou. Não me considere ingrato. Sei que muita gente rompe contigo e, depois, passa a vida inteira falando mal de você, como se nunca tivesse gostado da tua companhia.

Eu não farei isso. Prefiro guardar as boas lembranças. Mas algumas amizades, justamente porque foram intensas demais, precisam terminar antes que terminem conosco.

Adeus, meu velho amigo.

Obrigado por tudo. A gente ainda vai se ver por aí. Mas, a partir de hoje, parei de você.

Parei de fumar…

* Fabio L. Borges, jornalista, cronista e poeta gaúcho

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