Terça-feira, 09 de junho de 2026

Saiba por que a “pele real” está ganhando espaço nas redes sociais e mudando a forma de enxergar a beleza

Em meio ao excesso de filtros, edições e padrões de beleza cada vez mais uniformizados nas redes sociais, um movimento em sentido oposto tem ganhado força: o da valorização da chamada “pele real”. Em vez de imagens perfeitamente lisas e sem textura, influenciadoras e celebridades passaram a compartilhar registros mais naturais, com poros visíveis, linhas finas e variações de tom, numa tentativa de aproximar a imagem digital da aparência cotidiana.

O avanço das imagens altamente editadas nas redes sociais tem provocado um desgaste crescente em relação aos padrões estéticos idealizados, especialmente entre mulheres jovens. Na prática clínica, dermatologistas observam reflexos desse cenário: pacientes cada vez mais insatisfeitas com a própria pele após sucessivas comparações com conteúdos filtrados.

Nesse contexto, especialistas apontam que a mudança de percepção é positiva, mas exige equilíbrio. A valorização de uma aparência mais natural não elimina a importância dos cuidados dermatológicos, e o desafio está em afastar a lógica de perfeição que se consolidou no ambiente digital.

Segundo a dermatologista Larissa Oliveira, esse impacto já é percebido no consultório e altera a forma como as queixas são interpretadas. “Durante muitos anos, as redes sociais reforçaram imagens excessivamente editadas, criando uma ideia irreal de pele perfeita. Isso fez com que muitas pessoas passassem a enxergar características naturais, como poros, textura e linhas finas, como defeitos”, afirma.

Ela observa que o movimento atual tem contribuído para uma leitura mais realista da pele e dos tratamentos. “Com a valorização crescente da ‘pele real’, percebemos uma busca mais equilibrada por procedimentos dermatológicos. Muitos pacientes começam a compreender que saúde cutânea não significa ausência absoluta de marcas ou textura, mas sim uma pele bem cuidada, saudável e compatível com sua individualidade e idade”, diz.

Essa mudança também ajuda a reduzir expectativas irreais e favorece uma relação mais consciente com os procedimentos estéticos, mais próxima da realidade biológica da pele.

Os filtros digitais seguem sendo apontados como um dos principais fatores de distorção dessa percepção. Ao uniformizar tons, suavizar textura e eliminar marcas naturais, criam uma imagem idealizada que passa a ser tomada como referência.

“O problema é que a exposição constante a esse padrão pode fazer com que as pessoas passem a comparar sua imagem real com versões artificialmente modificadas. Isso gera um distanciamento da percepção natural da própria aparência e pode aumentar quadros de insegurança estética e insatisfação corporal”, afirma a dermatologista.
Ela acrescenta que já há discussões científicas sobre os efeitos dessa hiperexposição, sobretudo entre mulheres jovens e adolescentes. “O que vemos hoje é um debate cada vez mais consistente sobre como esses filtros influenciam a percepção de normalidade da pele e, consequentemente, o bem-estar emocional”, completa.

O desafio atual, segundo especialistas, está em equilibrar cuidado e aceitação sem se orientar por padrões inalcançáveis. A dermatologia segue com papel central na promoção de saúde e prevenção, desde que conectada a expectativas mais realistas.

Quando há respeito à individualidade, os tratamentos ganham coerência e melhores resultados. Fora desse eixo, cresce o risco de aproximação com referências desconectadas da realidade biológica da pele.

Nesse cenário, aumenta a busca por intervenções mais discretas, com foco em qualidade, viço e um envelhecimento mais harmônico.

Ao mesmo tempo, a valorização da naturalidade vem mudando a forma como esse processo é percebido, deixando de ser visto apenas como algo a ser combatido para ser compreendido como parte da própria rotina de cuidado.

Com isso, ganham espaço abordagens mais individualizadas, que preservam expressão e identidade e favorecem uma relação menos rígida com a autoimagem.

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