Domingo, 21 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 21 de junho de 2026
A operação policial contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no âmbito do escândalo do Banco Master, assemelha-se tanto na forma quanto no impacto de opinião pública ao caso do presidente nacional do PP, senador Ciro Nogueira (PI). O fato de virem à tona na mesma semana, mas não de forma simultânea, não é coincidência. Como um armador do time em campo, o ministro relator da Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, cadencia o jogo.
Wagner representa para a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o mesmo nível de desgaste na opinião pública do que representou Nogueira para a campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), seu principal adversário no pleito de outubro. Não são tiros letais nem para um, nem para outro presidenciável. Talvez sejam para os diretamente envolvidos: as imagens de dólares apreendidos na residência do petista e ofertas generosas de apartamentos para ambos cobrarão seu preço.
Nogueira e Wagner são lideranças políticas com peso regional, do Nordeste, com muita articulação de bastidores em Brasília e pouco conhecidas nacionalmente. Parecem no estilo: são moderados em suas essências e convergem para o centro. Nogueira está à esquerda da direita e Wagner à direita da esquerda. Ambos convergem também para Vorcaro, a favor de quem teriam atuado no Senado, de acordo com a linha de investigação do inquérito.
Nogueira é um aliado leal, embora relativamente recente, do ex-presidente Jair Bolsonaro, de quem foi ministro da Casa Civil. O escândalo de sua ligação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro reforçava a narrativa de que o caso Master é uma assombração na casa dos outros, não na de Lula. Mas não é um tiro no coração de Flávio: ele resiste a entrar na campanha do senador, porque quer negociar para seu partido a vaga de vice na chapa.
O envolvimento de Wagner no caso não chega a surpreender. A ligação financeira entre a sua nora e o sócio de Vorcaro, o ex-banqueiro Augusto Lima, é conhecida há alguns meses. Ao contrário de Nogueira em relação a Flávio, sua vinculação com Lula é mais forte, como o próprio senador fez questão de exaltar, ao destacar que eles têm uma amizade “de 48 anos”, em entrevista depois de receber um telefonema de solidariedade do presidente. Ele é um quadro histórico do PT, uma das pilastras do partido, tendo sido ministro tanto de Dilma Roussef quanto de Lula em várias pastas. Foi cogitado como candidato a presidente da República em 2018. Não está, contudo, no vórtice da campanha à reeleição de Lula.
Seu envolvimento no caso, do ponto de vista de narrativa, reequilibra o jogo para a oposição, que pode argumentar que o reino de Vorcaro é ecumênico, tem muitas moradas. Tanto que as lideranças oposicionistas passaram a repetir nas redes sociais como um mantra a frase: “O caso Master teve origem no PT da Bahia”.
Dizer que todos estão chafurdados no mesmo lodo não chega a ser, contudo, um grande trunfo. Pelo contrário: aumenta o descrédito da classe política e reforça nos dois polos as vertentes radicais tanto da direita, quanto da esquerda. Deve abrir oportunidades para Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo) na campanha presidencial, únicos a vestirem a roupa antissistema.
O caso Master sangrou Lula e Flávio nos últimos meses em função de dois outros episódios: o áudio em que Flávio pede dinheiro a Vorcaro para a conclusão do filme “Dark Horse”, pelo fato de representar o envolvimento direto de um presidenciável, e as suspeitas que pesam contra o ministro Alexandre Moraes. Embora não seja aliado de Lula, é assim que Moraes é visto pela opinião pública, e seu nome, ao contrário de Wagner, é nacionalmente conhecido. Ressalve-se que Moraes não é objeto de nenhuma operação policial e sequer é formalmente investigado.
As implicações mais graves do cerco policial a Wagner, em um primeiro momento, são as políticas e as eleitorais locais. Politicamente desarticula a já fraca articulação do governo no Congresso, em um momento em que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), também está ameaçado pelas investigações. A neutralização de Wagner tende a isolar o governo.
Eleitoralmente se enfraquece a chance de reeleição de Wagner na Bahia. O PT concorre no Estado com chapa pura. A outra cadeira ao Senado é disputada pelo ex-ministro da Casa Civil Rui Costa, por ora poupado da artilharia do Master. Costa lidera as pesquisas que foram feitas na Bahia. O também senador Ângelo Coronel (Republicanos-BA) e o ex-ministro João Roma (PL) disputam o Senado pela direita. Essa conjuntura cria dificuldades para Wagner ter tanto o primeiro quanto o segundo voto. (Com informações do Valor Econômico)