Domingo, 21 de julho de 2024

Sindicatos perdem mais de 6 milhões de filiados em 11 anos

A taxa de sindicalização dos trabalhadores brasileiros caiu pela metade de 2012 a 2023. São 8,4% dos ocupados que estão ligados a algum sindicato contra 16,1% em 2012, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PnadC) sobre as características do mercado de trabalho, divulgada pelo IBGE.

O mesmo levantamento mostra que o trabalhador está mais instruído: 23,1% (23,2 milhões) tinham ensino superior completo no ano passado. Há 11 anos, eram 14,1%. E houve redução da parcela de trabalhadores sem instrução ou com fundamental incompleto, que caiu de 32,6% em 2012 e 20,1% em 2023.

Na filiação aos sindicatos, segundo o IBGE, a Reforma Trabalhista de 2017, que criou modelos de trabalho mais flexíveis, e o uso crescente de trabalhadores temporários na administração pública são fatores que explicam a queda na parcela de sindicalizados num momento em que o emprego formal está crescendo.

Para Rodolpho Tobler, pesquisador do FGV/Ibre, alguns setores muito sindicalizadas perderam espaço na economia, como a indústria. Eram sindicalizados 21,3% do total em 2012 e, no ano passado, o percentual caiu para 10,3%. “Além disso, a partir da Reforma Trabalhista de 2017, surge a questão da não obrigatoriedade da contribuição sindical, a flexibilização do trabalho, com contratos temporários, inclusive nas áreas de saúde e educação, que também costumavam ter mais sindicalização”, declara.

O IBGE chamou a atenção para a queda mais acentuada entre os jovens. Na faixa etária de 18 a 24 anos, a população ocupada recuou 8,7% no Brasil, mas o número de trabalhadores sindicalizados nessa faixa etária recuou 73,4%. “Essa população mais jovem se insere no mercado de trabalho através de vínculos mais frágeis, muitas vezes na informalidade, ou em trabalhos intermitentes, com maior rotatividade, o que leva ao menor número de associações”,  explica Adriana Beringuy, coordenadora de Pesquisas Domiciliares do IBGE.

“A estrutura do mercado de trabalho em que esse jovem entra é diferente do que era há algumas décadas. Essa cultura de sindicalização não é tão forte”, complementa. O ano de 2013 foi o último que teve aumento na sindicalização. Nos anos seguintes, apesar do aumento do número de trabalhadores ocupados, a filiação só caiu.

“A redução da sindicalização se intensifica em 2017, ano em que a nova legislação trabalhista entrou em vigor e que coincide bem com essa variação mais acentuada”, diz William Kratochwill, gerente da pesquisa.

Para Marcelo Neri, diretor da FGV Social, é uma tendência internacional, já que o novo mundo do trabalho é menos sindicalizado e passou por processos de uberização, com atividades feitas a partir de plataformas e menos direitos trabalhistas. “Os jovens, que são o retrato do futuro, estão menos sindicalizados e buscam menos esse mundo fordista, industrial. É um mundo novo, onde as pessoas trabalham de uma maneira mais avulsa, por plataforma, e têm uma certa noção de que se buscarem muitos direitos, talvez não consigam um emprego”, coloca.

Trabalho remoto

Já sobre a maior escolarização no mercado de trabalho, Bruno Imaizumi, economista da LCA Consultores, diz que houve um aumento expressivo de pessoas na universidade durante a década de 2010, o que explica em parte esse avanço. “Os jovens que estão entrando no mercado de trabalho são mais escolarizados. Ao mesmo tempo, durante aquela época, teve um descompasso entre o que as empresas demandavam e o que esses alunos estavam estudando”, esclarece.

Outra característica levantada pela pesquisa foi o trabalho remoto, que é realidade para 8,5% dos ocupados. Em 2019, eram só 5,8% nesta situação. De acordo com Neri, a pandemia obrigou a população a entrar de cabeça no trabalho remoto, porém, mesmo após o isolamento social, foram descobertas as vantagens de uma semana de trabalho de três ou quatro dias presenciais.

“Existe, por um lado, a redução de custos trabalhistas quando as pessoas trabalham remotamente. Os custos de produção são menores, pelo menos para as empresas. Porém, com essa maior flexibilidade, talvez tenham menos direitos trabalhistas reconhecidos. É algo que talvez permita às pessoas serem mais produtivas, embora talvez mais desprotegidas em termos trabalhistas”, conclui. As informações são do jornal O Globo.

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