Sábado, 05 de setembro de 2026

“Tomava morfina para a dor até que os médicos descobriram que eu tinha endometriose aos 13 anos’

Todos os meses, por volta da época da menstruação, Grace precisa ser levada ao hospital. Ela sente tanta dor que seus pais frequentemente precisam carregá-la até o carro. No pronto-socorro, ela por vezes espera por horas para ser atendida, apenas para ser mandada de volta para casa chorando e com mais analgésicos fortes.

Durante muito tempo, Grace, que agora tem 14 anos e é de Yorkshire, no Reino Unido, sentiu que os médicos desconsideravam sua dor. “Sinto que me viam como uma menina que não queria ir à escola e que estava fazendo drama”, diz ela.

Foram apresentadas a ela várias possíveis causas para seus sintomas: síndrome do intestino irritável, um cisto, ansiedade e “apenas uma cólica menstrual forte”. Mas, segundo ela, “eu sabia que era algo mais sério do que isso”.

Os médicos disseram à britânica em diversas ocasiões que não poderia ser endometriose — uma doença incurável que causa lesões e cicatrizes nos órgãos internos e em todo o corpo — porque ela era muito jovem.

Grace afirma que os seus pedidos de investigação mais aprofundada foram ignorados.

Grace começou a menstruar aos 11 anos e, aos 13, já sentia dores excruciantes durante o período menstrual. Ela descreve a sensação como se um “arame farpado aquecido” estivesse enrolado em seu abdômen: “É como se meus órgãos estivessem sendo dilacerados.”

Ela frequentemente fica acamada e, sempre que esgota os analgésicos que tem em casa, precisa ir ao hospital, onde recebe morfina regularmente. Ela também já recebeu co-codamol e tramadol.

A dependência de drogas fortes como opioides a preocupa. “É assustador”, diz ela, “porque não quero ter que depender delas para o resto da minha vida.”

Mas o que mais frustra Grace, e o motivo pelo qual ela entrou em contato com o programa Your Voice da BBC, é que ela sente que os especialistas médicos não reconhecem que adolescentes e jovens podem sofrer de endometriose.

O médico de família de Grace não diagnosticou sua condição, assim como o primeiro especialista particular que ela consultou.

“Nem mesmo um especialista acreditou em mim. E se um especialista não me ouve, quem vai?”, questiona ela.

Foi somente depois que a família insistiu para que ela consultasse um segundo médico particular que ela obteve um diagnóstico positivo.

A endometriose, que ocorre quando um tecido semelhante ao revestimento do útero cresce fora dele, pode causar sintomas debilitantes, como dor pélvica, menstruação intensa e fadiga.

Cerca de 10% das mulheres são afetadas por ela, de acordo com dados do NHS (Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido).

No Brasil, o MInistério da Saúde estima que a doença afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva. Essa fase da vida compreende desde a primeira menstruação, no início da adolescência (entre 10 e 14 anos geralmente), até a menopausa, entre 45 e 55 anos.
A endometriose pode se desenvolver em qualquer idade após o início da menstruação, e é um equívoco comum pensar que apenas mulheres mais velhas sofrem com a doença, afirma a organização beneficente Endometriosis UK.

Faye Farthing, porta-voz da instituição de caridade, afirma que governos e profissionais de saúde precisam melhorar a educação sobre saúde menstrual para jovens “se quisermos garantir que a próxima geração não seja privada do futuro que merece”.

A instituição de caridade afirma que o diagnóstico de endometriose pode ser demorado – em média, nove anos em mulheres mais velhas no Reino Unido.

No Brasil, a Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE) estima que o tempo médio para o diagnóstico pode variar de cerca de 7 a 10 anos.

E nos estágios iniciais em adolescentes, muitas vezes os sinais da doença não aparecem em uma ultrassonografia. No entanto, novos exames estão sendo desenvolvidos para ajudar a detectar a condição mais cedo.

A ginecologista pediátrica Gail Busby afirma que quase 80% das adolescentes terão cólicas menstruais, mas os médicos devem reconhecer quando os sintomas de uma paciente não são normais – como faltar à escola, faltar às aulas de educação física todos os meses ou não sair com os amigos.

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