Terça-feira, 01 de setembro de 2026

Tudo é proporcional

A ilusão de que o poder absoluto traz uma vida livre de preocupações ignora a lógica implacável da proporção que rege a existência humana. Ao observar figuras como Vladimir Putin ou Kim Jong Un, a tendência comum é enxergar apenas o privilégio e a autoridade suprema, esquecendo que o custo dessa posição é extraordinariamente elevado. A relação de risco e retorno cobra o seu preço na perda total da liberdade de ir e vir, na impossibilidade de transitar anonimamente ou de cruzar fronteiras sem o risco iminente de sanções e prisões, transformando o palácio em uma prisão de segurança máxima. Esse mesmo princípio de proporcionalidade se manifesta nas esferas mais cotidianas da riqueza material, onde ostentar um aparelho celular de alto valor não representa apenas status, mas um convite direto à violência urbana e ao risco constante de agressões, provando que possuir mais recursos muitas vezes significa apenas carregar um alvo maior nas costas.

Imagine a ironia de acumular uma fortuna monumental e, paradoxalmente, perder a autonomia para sair de casa por medo de cercos incessantes, assédios, pedintes ou ameaças, percebendo que a riqueza não liberta, mas apenas altera a natureza das coisas. Essa dinâmica se intensifica exponencialmente na vida dos famosos, que habitam uma realidade onde a privacidade foi completamente aniquilada pela exposição. Viver sob os holofotes significa habitar um terreno desconfiança, incapaz de distinguir a sinceridade genuína do interesse alheio, enquanto se é filmado e fotografado a cada passo. Relacionamentos viram produtos da mídia, críticas vêm de desconhecidos que nada sabem sobre sua essência, e o medo constante de extorsão ou julgamento público corrói a saúde mental, mostrando que a fama é um fardo pesado que suga a paz em troca de aplausos momentâneos.

No fundo, independentemente da nossa posição social, os problemas que enfrentamos mantêm uma equivalência perturbadora. As angústias de quem enfrenta a escassez não são maiores do que as crises existenciais de um bilionário; elas apenas vestem roupas diferentes, enquanto a essência do sofrimento humano permanece intacta e merece validação, longe de julgamentos superficiais. O esforço exaustivo para performar uma força inabalável, seja no trono de uma ditadura, nos bastidores da alta sociedade ou na proteção contra o medo de ser visto como frágil, gera um estresse crônico que corrói o espírito. A mente humana possui uma capacidade adaptativa alarmante que nos faz banalizar as conquistas logo após alcançá-las, desvalorizando o que temos e nos lançando em uma corrida interminável para almejar mais e mais, numa busca frenética que culmina na constatação de que, no fim de tudo, a nossa dor e a nossa ambição caminham sempre de mãos dadas, mantendo-se perfeitamente proporcionais à nossa realidade.

(Wesley Dorly, 18 anos, morador de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Entre inquietações e reflexões, dedica-se a registrar o seu olhar sobre o mundo)

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