Domingo, 14 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 13 de junho de 2026
A União Europeia (UE) quer entrar na disputa com os Estados Unidos e a China pelas reservas de terras raras no Brasil. A Comissão Europeia (CE) pretende intensificar as negociações para firmar uma parceria em território brasileiro e chegar a um acordo com o governo federal com o objetivo de assegurar suprimentos para as indústrias estratégicas europeias, entre elas as de tecnologia e defesa, e escapar do controle chinês no segmento e do apetite americano disparado por Donald Trump.
Diplomatas brasileiros afirmam que os europeus demonstram preocupação com o avanço dos EUA e da China nas reservas de minerais críticos da América do Sul. Embora o subsolo nacional não tenha sido totalmente mapeado, estimase que o País detenha a segunda maior reserva de terras raras do mundo (23%) – cerca de 21 milhões de toneladas.
Entre 18 e 24 de junho, a UE enviará ao Brasil o comissário de Parcerias Internacionais, Jozef Síkela, responsável por assegurar o que os europeus chamam de uma “cadeia de suprimentos segura e sustentável” de matéria-prima crítica. Ele vai a Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília e estará acompanhado de lideranças do projeto de investimento europeu Global Gateway, da diplomacia do bloco e também do Banco Europeu de Investimentos (BEI).
Funcionários da UE veem no Brasil uma oportunidade para a Europa, ao oferecer o que chamam de parcerias “confiáveis” e “estáveis”, enquanto existe instabilidade global por causa da disputa por liderança e da guerra comercial entre Estados Unidos e China.
Os europeus falam em oferecer tecnologia, formação e investimento produtivo, seguindo os seus parâmetros climáticos e sociais.
A UE montou com os governos de Brasil, Argentina e Bolívia grupos de trabalho para selecionar seus projetos prioritários a fim de receber aportes. Os europeus também apresentaram seus interesses, e os portfólios foram cruzados e mostrados a empresas do bloco. O objetivo é criar conexão industrial entre as empresas sul-americanas e as europeias.
Os europeus querem diversificar suas fontes de acesso a minerais críticos, entre eles os elementos de terras raras abundantes no Brasil, mas escassos no restante do mundo (exceto a China). Eles fizeram chegar aos governos que estão dispostos a investir dinheiro nos países, “mas não para que refinem o lítio e o mande de volta para a China”.
Os europeus são claros: buscam diversificar a cadeia de suprimentos e garantir independência, para escapar de quem, com uma ordem política, “fecha o mercado de exportação e paralisa a indústria automobilística alemã”, como fez a China.
Guerra comercial
Como retaliação à guerra comercial com os EUA, Pequim já represou a exportação de minerais críticos, o que afetou a indústria americana, inclusive a indústria de defesa.
O bloco europeu sabe que será difícil cobrar exclusividade – o governo brasileiro já recusou um acordo nessas bases com os EUA –, mas exigem que ao menos parte das exportações dos insumos volte à Europa. Dizem, como contrapartida, que vão investir em produtos de valor agregado feitos localmente.
A viagem de Síkela e a ofensiva europeia ocorrem depois de os Estados Unidos comprarem participação na Serra Verde, que explora terras raras leves e pesadas em Minaçu (GO), e busca alternativas a um mercado dominado pela China – Pequim concentra cerca de 70% da capacidade de exploração e 90% do refino. A compra da Serra Verde foi feita pela USA Rare Earth, mineradora da qual o governo Trump passará a ser acionista.
Além de avaliar um projeto em concreto – o Colossus, da empresa australiana Viridis, em Poços de Caldas (MG) –, a UE e o governo brasileiro discutem formalizar um acordo, ainda com termos mais genéricos, para dar base à cooperação em terras raras e outros minerais críticos.
Segundo apuração do jornal O Estado de S. Paulo, os primeiros rascunhos do acordo não agradaram ao Brasil, porque se limitavam a discutir aspectos da extração mineral. Pessoas com acesso ao texto falam em tratativas para um memorando de entendimentos, espécie de carta de intenções – algo que a UE já assinou com Argentina e Chile.
Cadeia industrial
Representantes do Brasil avisaram que só haverá acordo se incluir beneficiamento e investimentos no País. Existem fundos que a UE pode mobilizar para financiar empresas interessadas em reservas de terras raras.
Enquanto ainda discute uma política nacional – um marco legal foi aprovado na Câmara e tramita no Senado –, o governo adotou como diretriz firmar acordos mais gerais, deixando claro o interesse em parcerias que induzam a criação de uma cadeia industrial no País, voltada ao processamento e refino dos minerais em vez da exportação de matéria-prima bruta. (As informações são de O Estado de S. Paulo)