Segunda-feira, 01 de junho de 2026

Vacina de RNA vai mudar como o câncer é tratado

As vacinas de RNA mensageiro deverão ser a principal revolução no tratamento do câncer, diz o médico patologista Victor Piana, CEO do A.C. Camargo Cancer Center. A tecnologia ganhou projeção na pandemia por ser usada em alguns imunizantes contra o coronavírus. No caso das vacinas contra o câncer, a ideia é treinar células de defesa para procurar e destruir células cancerígenas. “Imagina você fazer uma cirurgia e, em vez de complementar o tratamento com quimioterapia, complementar com uma vacina que vai manter o seu sistema imune ativo para destruir as células tumorais existentes em pequenos grupos microscópicos espalhados pelo seu corpo”, comentou o médico em entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

1. Como a inovação vem mudando a área da oncologia?

A gente conhecia as células de olhar no microscópio, agora a gente conhece os 35 mil genes que ela tem. E, ao conseguir entender o que cada gene faz, como a célula se comporta por causa desses genes, desenvolvemos medicamentos e testes diagnósticos baseados nessas características moleculares. Imagine um painel de 35 mil disjuntores em que não é fácil saber qual é o certo para desligar. Hoje, em vários tratamentos oncológicos, a gente sabe exatamente qual disjuntor desligar. Melhor do que isso, não só a gente desliga o disjuntor da célula tumoral, como liga os do sistema imune.

2. Vocês têm alguma iniciativa para tentar trazer mais estudos clínicos globais para o Brasil e propor novos estudos clínicos?

Sim, atuamos nas duas frentes. Tem mais de 100 estudos abertos hoje no A.C. Camargo, testando vários medicamentos, mas também novos protocolos, novas maneiras de tratar. Muitos deles vêm trazidos pela indústria farmacêutica. O interesse de trazer estudos para o Brasil vem aumentando. O Brasil é uma população geneticamente muito diversa. O A.C. Camargo tem sido muito procurado para estudos desde medicamentos mais simples até CAR-T cell, que é hoje o tratamento de maior tecnologia embarcada. Mas temos, sim, trials (ensaios clínicos) desenvolvidos pelos nossos médicos com novas formas de tratar com radioterapia ou cirurgia, ou novos protocolos de administração de medicamentos.

3. O senhor mencionou o CAR-T cell, e vemos esse e outros tratamentos na casa dos R$ 2 milhões por paciente. Qual é o caminho para baratear essas terapias muito inovadoras?

A gente está lidando com a primeira geração de CAR-T cell. Eu não tenho dúvida de que a segunda e a terceira gerações vão vir mais eficientes e a um custo menor. O mundo inteiro está dedicando muito esforço para isso. E o CAR-T cell é um tipo de terapia que permite democratizar a sua fabricação, então Espanha, Índia e o Brasil também têm centros que estão desenvolvendo o próprio CAR-T cell e isso tende a reduzir (o preço). Os estudos na Espanha e na Índia trouxeram o preço para cerca de um terço, um quarto do valor do que a gente tem hoje comercialmente no Brasil. Então, acho que é natural, vai acontecer.

4. Pensando no futuro, o que mais te empolga quando pensa em tratamentos oncológicos inovadores?

São as vacinas de RNA mensageiro. Quando a gente viu surgirem vacinas para o covid em um ano e meio, foi porque havia pesquisas sendo feitas para vacinas do câncer. E a Universidade Oxford, por exemplo, que produziu a vacina com a AstraZeneca na época, pivotou todo o esforço dela para o câncer agora. São vacinas para prevenir e para tratar. Imagina fazer uma cirurgia e, em vez de complementar o tratamento com quimioterapia, complementar com uma vacina que vai manter o seu sistema imune ativo para destruir as células tumorais. É uma maneira revolucionária de abordar a vacina, estou muito empolgado. O Brasil fez, via Ministério da Saúde, uma parceria com a Universidade Oxford e trouxe os pesquisadores num evento no A.C. Camargo, com Ministério da Saúde, Fiocruz, Inca, vários outros hospitais do Proadi (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do SUS), o CNPEM de Campinas (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais), a gente está construindo um consórcio porque o Brasil tem tradição em produzir vacina, e nós somos um bom campo de teste para acelerar os testes das vacinas que Oxford vai produzir. A universidade pretende iniciar o primeiro estudo fase 1 da vacina para o câncer de pulmão e nós estamos discutindo como é que o Brasil vai participar desse estudo. (As informações são de O Estado de S. Paulo)

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