Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

A descrição de Brasília como “ilha da fantasia” feita pelo ministro-chefe da Casa Civil não reflete a realidade de boa parte da capital da República; ministro disse que declaração foi feita em tom de “desabafo”

A descrição de Brasília como “ilha da fantasia” feita pelo ministro-chefe da Casa Civil, Rui Costa, não reflete a realidade de boa parte da capital da República. Dos 3 milhões de moradores do Distrito Federal, apenas 225 mil vivem no Plano Piloto, região administrativa onde ficam as sedes dos Poderes. A grande maioria da população, segundo o Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF), reside nas chamadas periferias urbanas, que têm situação muito diferente da área localizada no entorno do centro do poder.

Costa declarou que os políticos, nos percursos que fazem até chegar à Praça dos Três Poderes, não lidam com “gente pedindo comida e gente desempregada”. No entanto, as margens da N2, uma via a menos de um quilômetro do Palácio do Planalto, onde o ministro despacha, são ocupadas por barracas feitas com sacos de lixo e placas pedindo alimento e cobertor. Perto dali, na Rodoviária do Plano Piloto, a dois quilômetros do gabinete do chefe da Casa Civil, dezenas de pessoas dormem sob viadutos.

Barraca

Na avenida L3 Norte, a seis quilômetros do Planalto, Maria das Dores, de 54 anos, prepara sua comida com um pequeno amontoado de carvão que guarda em sua barraca improvisada, na calçada, onde vive com a filha. Vagando de um lugar para o outro, ela costuma permanecer no local até que agentes a serviço do governo do Distrito Federal a obriguem a procurar outro rumo.

A ocupação onde Maria das Dores vive é dividida com outras pessoas em situação de rua e fica em um trajeto usual entre os três Poderes e a Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência.

A chegada dela à ocupação foi recente. No dia 1.º deste mês, um dia antes da polêmica fala de Costa, feita na Bahia, servidores do governo do DF tiraram Maria das Dores de outra calçada e levaram suas roupas, cobertores e lonas. Ela disse que espera um apartamento subsidiado pelo governo, promessa, segundo Maria das Dores, feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Para os outros já saiu, mas para a gente ainda não.”

A poucos metros da barraca de Maria das Dores vive Erisvaldo Santana, nascido em Irecê, na Bahia. Ele disse que sobrevive com a mulher da coleta de materiais recicláveis. Durante a conversa de Santana com a reportagem, um carro estacionou no meio-fio da pista e entregou uma caixa de garrafas PET para o casal. A ajuda veio de Tamy Lacerda, uma profissional de saúde aposentada.

Desigualdade

Uma das regiões que mais expõem a desigualdade na capital federal é a do Setor Santa Luzia, no bairro da Cidade Estrutural. A menos de 15 quilômetros do gabinete de Costa, o local sofre com problemas básicos, como saneamento.

A comunidade surgiu após a criação do Lixão da Estrutural, que já foi o maior depósito de dejetos a céu aberto da América Latina. O fim do lixão, que era fonte de renda, deixou a população local em situação ainda mais crítica. Do ponto mais alto da comunidade, é possível avistar os grandes prédios do centro de Brasília. “Eles não sabem onde é a Santa Luzia. Só vivem nos palacetes”, disse a moradora Maria da Guerra.

Nesta semana, cinco dias após a fala que rendeu uma “bronca” de Lula e até pedidos de demissão, Costa usou sua conta no Twitter para se desculpar. “Não fui feliz nas minhas palavras, o que permitiu que alguns transformassem a minha declaração em um ataque à cidade ou ao seu povo”, escreveu ele na rede social.

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