Quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

Amigo de Lula indicado para ministro do Supremo faz romaria por gabinetes de Brasilia

Indicado há dez dias pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, o advogado Cristiano Zanin terá uma semana decisiva no seu empenho pessoal para confirmar no Senado a nomeação à Corte máxima do País. Na opinião de congressistas aliados e opositores ao governo, o ambiente político atual é favorável ao ex-defensor de Lula. Neste sentido, conta a seu favor os reveses sofridos por nomes ligados à Lava Jato no Legislativo e no Judiciário.

O líder do governo no Congresso, senador Randolfe Rodrigues (sem partido-AP), disse acreditar que Zanin deverá ser sabatinado até 21 de junho. Em sua romaria por gabinetes de Brasília, o advogado tem procurado diferentes espectros políticos do Congresso, para além da base de Lula que naturalmente lhe apoiará.

Recentemente, tomou café da manhã com evangélicos e parlamentares de oposição. No encontro, estavam os deputados Sóstenes Cavalcante (PL-RJ) e Renata Abreu (SP), presidente do Podemos, que abriga o agora deputado cassado Deltan Dallagnol (PR).

Também conversou com ministros de diferentes alas do Supremo. Jantou com André Mendonça, e teve um encontro com Gilmar Mendes e Dias Toffoli na casa da ex-senadora Katia Abreu, com a presença ainda de aliados de Lula como os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Randolfe.

Evangélicos

Nos territórios que podem lhe ser mais hostis, tem evitado bolas divididas. Com evangélicos, por exemplo, pouco falou sobre assuntos de Direito Constitucional, e respondeu, quando questionado, sobre família: disse ser pai de três filhos, além de casado. Tem dito que pautas conservadoras, como aborto e drogas, caras ao segmento religioso, cabem ao Congresso e que, se aprovado, rejeitará que a Corte “legisle” sobre os temas. “Acho oportuno que ele possa ter a possibilidade de apresentar aos senadores conservadores o que ele pensa sobre nossos assuntos, aí cada senador poderá fazer seu juízo de valor”, afirmou Sóstenes.

O indicado de Lula precisa ser sabatinado na Comissão de Constituição de Justiça (CCJ) do Senado. Seu nome passará por votação no colegiado e depois seguirá para o plenário. Como mostrou a Coluna do Estadão, Zanin tem conquistado líderes evangélicos e mira a maior bancada do Senado, a do PSD.

Parlamentares mais ao centro e à direita relataram nesses encontros incômodo com o que consideram uma tentativa de criminalizar a política pela Lava Jato. O antagonismo à operação que encarnou ao defender Lula tem sido ressaltado por Zanin nas conversas. Ao azeitar a relação com políticos de fora do espectro governista, ele busca também isolar a ala lavajatista no Congresso, personificada no senador Sérgio Moro (União Brasil-PR) – ex-juiz titular da operação.

Um dos expoentes deste grupo, o senador Alessandro Vieira (PSDB-SE), admitiu que a expectativa é por “uma sabatina sem maiores transtornos”. “Contudo, é preciso verificar a motivação da indicação e se Zanin cumpre os requisitos previstos na Constituição, pois não pode ser apenas uma vontade do presidente da República”, afirmou.

Turmas

Zanin foi indicado pelo presidente para a vaga deixada por Ricardo Lewandowski, que se aposentou. O ministro integrava a Segunda Turma do Supremo, na qual ficam os processos da operação que condenou Lula. Essa era uma das principais preocupações em torno do nome do advogado, que poderia herdar os casos. No início de maio, a presidente da Corte, Rosa Weber, autorizou uma mudança de turma de Dias Toffoli. Agora, a vaga em aberto é na Primeira Turma do STF – longe dos processos da Lava Jato.

No Senado, Zanin já recebeu apoio declarado de opositores contundentes do governo petista. O presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), afirmou que vai votar a favor da indicação do advogado, pois considera que se trata de uma prerrogativa do presidente. “Voto a favor. É um direito do presidente escolher, e ele (Zanin) cumpre os requisitos para a vaga”, disse Nogueira, apostando que o nome de Zanin deve ser aprovado “com tranquilidade” pelo Senado.

O presidente da CCJ na Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), se comprometeu a não atrasar a sabatina na comissão, primeiro passo para análise da indicação. Na CCJ estão vários nomes que fazem oposição ao Planalto – e que podem, por isso, ser contrários ao nome de Zanin. Além de Moro, estão na comissão Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Marcos do Val (Podemos-ES).

Historicamente, o Senado não costuma derrubar as indicações feitas pelo presidente da República. Isso, porém, não significa que o nome de Zanin possa passar sem tensões.

Compartilhe esta notícia:

Voltar Todas de em foco

A descrição de Brasília como “ilha da fantasia” feita pelo ministro-chefe da Casa Civil não reflete a realidade de boa parte da capital da República; ministro disse que declaração foi feita em tom de “desabafo”
A cada três brasileiros fora do mercado de trabalho, dois são mulheres; dados mostram que a pandemia afetou mais as trabalhadoras
Pode te interessar
Baixe o app da TV Pampa App Store Google Play