Domingo, 30 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de agosto de 2026
A empresária Roberta Luchsinger, apontada pela Polícia Federal (PF) como suspeita de atuar como lobista junto ao governo federal, alterou sua empresa de consultoria no ano passado para uma Sociedade Anônima (SA), o que, na prática, dificulta a identificação do quadro societário. A mudança da RL Consultoria foi registrada em novembro de 2025 na Junta Comercial de São Paulo (Jucesp), cerca de um mês antes de ela ser alvo de buscas na Operação Sem Desconto, que investiga um esquema de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
A empresa de Luchsinger está no centro das investigações da PF envolvendo o filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Fábio Luís da Silva, conhecido como Lulinha. Os investigadores apontam que ele e Luchsinger tinham uma atuação voltada à “interlocução de interesses privados perante agentes e órgãos da administração pública federal”.
A suspeita é que os dois atuavam em conjunto para fazer tráfico de influência junto a diferentes órgãos do Executivo e que estariam buscando formas de blindar patrimônio no exterior. Lulinha se mudou para a Espanha no início de 2025. A dupla nega as acusações. A defesa do filho do presidente também afirmou que ele “não tem qualquer relação direta ou indireta com a empresa” de Luchsinger.
A PF localizou no celular de Luchsinger mensagem de WhatsApp na qual ela afirmou que precisava “tirar o Fábio e a família do país” até junho do ano passado. Segundo o Valor apurou, a alteração na RL Consultoria ocorreu em junho, apesar de ter sido formalizada na Junta Comercial somente em novembro. Ao alterar a natureza da empresa, Luchsinger e seu pai, Roberto Pedro Paulo Luchsinger, registraram que a mudança tinha como objetivo “abrir filiais em solo estrangeiro”.
Criada em 2019, a empresa pertencia ao pai de Luchsinger e era administrada por ela. Inicialmente, foi registrada como “Empresa Individual de Responsabilidade Limitada”, tinha um capital social de R$ 99,8 mil e funcionava no mesmo endereço residencial do pai de Luchsinger, até junho de 2025.
Naquele mês, Luchsinger entrou oficialmente para o quadro de cotistas da empresa, com 1% de participação e o endereço da empresa passou a ser o apartamento da empresária, em São Paulo. No mesmo ato, a empresa foi transformada em uma sociedade anônima de capital fechado, isto é, sem participação na bolsa de valores.
“Os sócios por unanimidade aprovaram a alteração para permitir a abertura de empresas subsidiárias e filiais da Sociedade em solo estrangeiro”, diz a alteração de contrato social registrada no fim do ano passado na Jucesp.
Na prática, com a alteração, apenas os dados dos sócios que registraram a alteração ficariam públicos e acessíveis. Isto é, se depois da mudança da natureza da empresa Luchsinger ou seu pai tiverem vendido ações para outra pessoa entrar na sociedade, essa alteração não precisaria ser registrada na Junta Comercial e poderia ficar registrada apenas dentro da própria empresa.
“A grande diferença entre uma sociedade limitada e uma sociedade anônima, para fins desta questão de registro, é que as informações a respeito dos sócios de uma sociedade limitada ficam públicas no contrato social e suas respectivas alterações contratuais, que são arquivadas na Junta Comercial”, explica o advogado especialista em direito empresarial e professor do Uniceub, Henrique Arake.
“No caso das Sociedades Anônimas, as informações sobre os acionistas ficam no livro de registro de ações ordinárias nominativas, que fica guardado na sede da sociedade. Desse modo, a única forma de saber quem é o atual acionista (ou para quem a ação foi vendida) é, com autorização da Justiça, consultar esses livros que ficam sob custódia da diretoria, pois essas informações não são públicas”, segue o professor. Com informações do Valor Econômico.