Quinta-feira, 04 de junho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de junho de 2026
O relatório do Fórum Econômico Mundial sobre as habilidades para 2025 oferece um retrato incisivo da transformação do trabalho contemporâneo. O gráfico divulgado evidencia que as competências ligadas à automação, inteligência artificial e adaptação cognitiva tornam-se centrais, enquanto habilidades repetitivas e operacionais perdem relevância progressivamente. A tendência apontada está em linha com estudos semelhantes feitos por universidades e especialistas na área de gestão do conhecimento.
A principal tese sustentada pelo quadro é que o mercado de trabalho do século XXI deixará de valorizar apenas execução técnica e passará a premiar capacidades analíticas, criativas e socioemocionais. Estamos muito mais diante de uma mudança civilizatória na própria concepção de trabalho, do que simplesmente de uma mudança tecnológica.
Mesmo com a ascensão das competências sociais e emocionais, a habilidade com maior expectativa de crescimento até 2030 é a “expertise em IA e dados”. Isso confirma a percepção de que a inteligência artificial não é uma tendência passageira, mas uma infraestrutura econômica comparável à eletricidade ou à internet. Como argumenta Klaus Schwab, fundador do Fórum Econômico Mundial, “a quarta revolução industrial não muda apenas o que fazemos; ela muda quem somos”. A afirmação ajuda a compreender por que competências humanas complexas passam a ser tão valorizadas.
Entretanto, o gráfico revela algo ainda mais interessante: as habilidades mais estratégicas combinam, conhecimento técnico com competências emocionais. “Pensamento crítico”, “inteligência emocional”, “liderança com impacto” e “adaptabilidade contínua” aparecem entre as competências mais relevantes. Isso sugere que, à medida que máquinas assumem tarefas previsíveis, cresce o valor daquilo que é distintamente humano.
Essa interpretação encontra respaldo em Yuval Noah Harari, que afirma que “no século XXI, a habilidade mais importante talvez seja a capacidade de reinventar-se repetidamente”. O futurólogo Alvim Toffler, décadas antes, antecipava que o analfabeto do século XXI não seria aquele que não soubesse ler ou escrever, mas aquele que não conseguisse aprender, desaprender e reaprender. A adaptabilidade, nessa perspectiva, é essencial.
O declínio das tarefas manuais e das habilidades repetitivas também evidencia uma ruptura educacional. Durante décadas, muitos sistemas de ensino foram estruturados para formar trabalhadores obedientes e eficientes em rotinas padronizadas. Contudo, a economia digital demanda profissionais capazes de interpretar contextos ambíguos, resolver problemas inéditos e colaborar de forma interdisciplinar.
Nesse sentido, o desafio é enxergar o processo educacional como uma jornada permanente, na qual, como lembrava Paulo Freire, a “educação não transforma o mundo; educação muda pessoas, e pessoas transformam o mundo”. Em um cenário dominado por IA generativa e automação, a formação humana ampla torna-se ainda mais necessária, não menos.
Outro aspecto relevante é o crescimento do “pensamento ecológico”. O dado demonstra que sustentabilidade deixa de ser uma pauta periférica e passa a integrar decisões econômicas centrais. Empresas e governos já compreendem que inovação e responsabilidade ambiental não são agendas opostas, mas complementares.
O gráfico do Fórum Econômico Mundial não deve ser lido apenas como uma previsão de mercado, mas como um alerta social. Organizações, universidades e governos que insistirem em modelos formativos baseados apenas em memorização e repetição poderão produzir profissionais inadequados para a nova realidade econômica.
O futuro do trabalho pertencerá menos àqueles que sabem executar procedimentos fixos e mais aos que conseguem aprender continuamente, interpretar mudanças e combinar tecnologia com sensibilidade humana. Em outras palavras, o diferencial competitivo do futuro não será apenas dominar máquinas, mas desenvolver plenamente aquilo que as máquinas ainda não conseguem substituir: criatividade, julgamento ético, imaginação e consciência crítica.
(Instagram: @edsonbundchen)