Sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Amiga de Lulinha tentava acertar venda de R$ 626 milhões em canabidiol ao governo federal

O objeto da minuta de contrato enviada por uma empresária a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, previa a venda de medicamentos à base de canabidiol ao Ministério da Saúde que poderiam render até R$ 626 milhões. O plano de negócios, obtido pelo jornal O Globo, revela o interesse de Roberta Luchsinger e do lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em fornecer ao governo federal 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios, sem licitação.

O documento foi encontrado pela Polícia Federal (PF) nos celulares de Luchsinger e Antunes, investigados por suspeita de tráfico de influência. A empresária, de acordo com o inquérito, foi contratada pelo lobista na tentativa de viabilizar a negociação e teria contado com a ajuda de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

Mensagens de WhatsApp descobertas pela PF mostram que Luchsinger enviou ao ex-chefe de gabinete uma minuta de um contrato de fornecimento de canabidiol ao Ministério da Saúde. Marcola confirmou a pessoas próximas que recebeu o documento, mas esclareceu que nunca encaminhou ou negociou qualquer proposta.

Antes de chegar ao celular do ex-assessor de Lula, o tema foi discutido pela equipe de Antunes, preso por suspeita de integrar um esquema de descontos indevidos e desvios de aposentadorias e pensões. O plano era vender 1,2 milhão de frascos por R$ 626 milhões, segundo um depoimento à PF prestado por uma testemunha que trabalhava para a World Cannabis, empresa do lobista.

Termo de referência

Além do depoimento, a PF encontrou documentos no celular de Antunes e de funcionários que detalhavam o negócio. Os arquivos eram versões de um termo de referência, espécie de manual técnico usado como base para o planejamento de contratações pelo governo. Uma das suspeitas dos investigadores é que a intenção era entregar esse texto pronto para que o Ministério da Saúde publicasse.

Um áudio mostra que Luchsinger e Antunes discutiram a possibilidade de emplacar o negócio no Ministério da Saúde com dispensa de licitação. “É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação”, disse a empresária ao lobista.

Mensagens obtidas pela investigação também mostram que Antunes tratou com interlocutores sobre a negociação do contrato. Em uma conversa de fevereiro de 2025, o lobista pede à equipe “um modelo que foi efetivado no MS”, em referência ao Ministério da Saúde. Em outra, do mês anterior, ele diz que teria reuniões com técnicos da pasta que, segundo ele, teriam “poder de acatar a execução do projeto”. O inquérito mostra ainda que Antunes viajou aos Estados Unidos e à Colômbia para buscar fornecedores de canabidiol.

O Ministério da Saúde afirma que a investida não gerou resultado prático. “Nunca houve possibilidade de compra de canabidiol, uma vez que o produto sequer está incorporado ao SUS. Dessa forma, a pasta não compra nem fornece o produto e não tem qualquer contrato. Nunca existiu por parte desta gestão nenhuma discussão para a sua oferta na rede pública de saúde”, diz o ministério, em nota.

Especialistas dizem que o Ministério da Saúde não faz compras espontâneas de medicamentos à base de canabidiol, porque não integram a lista de remédios padronizados do SUS. Eles explicaram, no entanto, que, para esse tipo de produto, as aquisições podem ocorrer em caso de decisões judiciais. Desse modo, o órgão público faz compras pontuais via importação direta.

As defesas de Antunes, Luchsinger e Marcola não se manifestaram. O ex-chefe de gabinete reconheceu a interlocutores que o recebimento do arquivo foi “inadequado”, mas afirmou que não houve favorecimento no caso.

O plano da empresária e do lobista era, de acordo com os documentos, explorar a necessidade que o Ministério da Saúde tem de, por força de decisões judiciais, comprar medicamentos à base de canabidiol, recomendados para o tratamento de doenças como autismo, depressão, insônia e esquizofrenia. Nessas situações, a pasta é obrigada a buscar fornecedores desses produtos, ainda que não estejam incorporados ao SUS.

O argumento defendido para que o negócio fosse fechado era a formação de um estoque, por parte do governo, para atender os pacientes que conquistassem o direito de obter o medicamento na Justiça. Conforme descreve documento encontrado pela PF, seria de “interesse público” fazer uma compra em lote, o que poderia reduzir custos. (Com informações do jornal O Globo)

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