Domingo, 05 de julho de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 4 de julho de 2026
As sanções aplicadas pelo governo dos Estados Unidos a pessoas e empresas brasileiras por supostos elos com o PCC e ao Comando Vermelho foram recebidas por banqueiros de grandes instituições sem alarde ou preocupação excessiva. Longe de sinalizar um cenário de insegurança, a medida da OFAC (Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA) é interpretada como um procedimento de rotina e avaliada de forma positiva no setor.
Assim que a lista foi publicada, as instituições rodaram varreduras padrão em seus sistemas para cruzar os CPFs e CNPJs citados e, até o momento, indicam não haver vínculo ou serviço ativo com esses alvos, o que afasta riscos de instabilidade no sistema tradicional. Mas as checagens continuam e são perenes, ressaltaram os executivos.
Esses interlocutores ressaltam que a avaliação se ancora na robustez do sistema de prevenção à lavagem de dinheiro no País. A legislação brasileira sobre o tema, que tem quase 30 anos, é considerada um benchmarking global na proatividade do sistema bancário. A fiscalização dos bancos funciona de forma automatizada e massiva. Somente no ano passado, o setor reportou mais de 4,7 milhões de movimentações financeiras suspeitas ao Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Além disso, como sanções internacionais contra diferentes indivíduos ocorrem diariamente ao redor do mundo, o setor encara o procedimento de checagem como parte do seu cotidiano operacional.
O grande diferencial desta medida, contudo, reside no ineditismo de sua classificação jurídica. É a primeira vez que os EUA fazem a indicação apontando relação com terrorismo.
Apesar de a legislação brasileira não ter a mesma interpretação sobre grupo terrorista, os executivos de bancos avaliam o movimento de forma positiva porque a lista delimita o terreno ao apontar condutas criminosas e elos claros com facções.
Essa clareza afasta o fantasma do clima de insegurança institucional vivido no ano passado — na época da aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, vista pelo setor como uma decisão vaga, subjetiva e de forte viés político por tratar de bases democráticas.
Desta vez, embora a notícia ganhe repercussão pelo tenso contexto geopolítico global do governo Donald Trump, marcado por discussões de tarifas alfandegárias e questionamentos da Seção 301, os bancos enxergam as sanções como uma ação com motivo técnico e delimitado, sem capacidade de abalar o ecossistema bancário tradicional.
Alerta maior para as fintechs
Cientes do rigor dos bancos tradicionais, empresas de fachada e operadores do crime organizado passaram a buscar brechas em fintechs menores, que historicamente operavam sob uma regulação mais frouxa até o ano passado. A base regulatória vinha sendo endurecida pelo Banco Central, que antecipou — de 2029 para 2026 — exigências para serem implementadas, para também fechar as portas à lavagem de dinheiro nessas instituições, após os desdobramentos da Operação Carbono Oculto.
Logo, uma percepção inicial no mercado financeiro é que talvez as fintechs precisem revisitar seus processos e criar novas camadas de proteção para evitar um abalo reputacional severo caso algum desses CPFs ou CNPJs apareça em suas bases.
A Operação Carbono Oculto — que envolveu atuação conjunta de PF, Ministério Público e Receita Federal — desmantelou uma gigantesca estrutura do PCC infiltrada no mercado financeiro e no setor de combustíveis, que movimentou R$ 52 bilhões. A facção utilizava distribuidoras e mais de mil postos de combustíveis para lavagem de dinheiro e sonegação, ocultando o patrimônio por meio de fundos de investimento estruturados em múltiplas camadas.
Em desdobramentos recentes, como a Operação Fluxo Oculto, a força-tarefa policial revelou o uso de “contas-bolsão” e a contaminação de pelo menos seis fintechs menores, que eram exploradas ativamente como o duto financeiro da organização criminosa para movimentar bilhões de reais à margem do sistema bancário tradicional, resultando na liquidação de instituições envolvidas e no endurecimento de regras de onboarding pelo Banco Central. (Coluna de opinião do portal Estadão, por
Roseann Kennedy).