Domingo, 30 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 29 de agosto de 2026
Dias após a avalanche que deixou centenas de mortos e desaparecidos no Nepal e no Tibete, equipes de emergência do Nepal conseguiram socorrer 350 pessoas que haviam se abrigado num túnel em construção de uma hidrelétrica durante a tragédia.
Os sobreviventes tiveram a sorte de encontrar um abrigo antes de serem atingidos pela enxurrada, mas as cenas de resgates dramáticos devem se tornar mais raras daqui em diante.
A atuação das equipes de socorro em grandes deslizamentos é mais complexa do que em terremotos. E, muitas vezes, há pouco o que se fazer para salvar vidas.
Ao contrário da janela de oportunidade de 72 horas calculadas a partir de terremotos, a expectativa de vida de vítimas de deslizamentos é de menos de 15 minutos, e a maioria dos resgatados com vida são aqueles que se encontram na borda da área do desastre.
É muito provável também que parte dos corpos não seja retirada ou nem mesmo localizada.
Entenda, a seguir, as dificuldades das equipes de buscas no Tibete e no Nepal, e por que a operação é ainda mais complexa do que nos casos de terremotos:
* Janela de oportunidade para encontrar sobreviventes praticamente nula
No caso de terremotos, as equipes de resgate trabalham num período de 72 horas após a tragédia quase exclusivamente focados em encontrar sobreviventes. Apesar das dificuldades, vítimas presas em estruturas podem ficar presas em bolsões de ar e até receber água da chuva, a depender das circunstâncias, enquanto aguardam a retirada dos escombros.
Essa janela praticamente inexiste em deslizamentos. A grande maioria das vítimas é atingida por uma massa de água, lama e detritos, incluindo carros, árvores e até casas. Poucas estruturas resistem com a vedação intacta, criando as bolhas de ar essenciais para a manter pessoas vivas.
Segundo um estudo publicado na revista científica “Jama” que analisou taxas de sobrevivência em avalanches na Suíça entre 1981 e 2020, as vítimas têm uma janela de 10 a 15 minutos antes de sofrer uma asfixia aguda, sendo que a privação crítica de oxigênio se inicia severamente logo após os primeiros 10 minutos.
Registros de sobreviventes após dias são raros e acontecem quase que exclusivamente na periferia do fluxo de detritos. E, mesmo que a pessoa esteja abrigada em um local vedado, a sobrevivência é quase nula se ela estiver a mais de seis metros de profundidade, pela dificuldade das equipes chegarem ao estrato em tempo hábil.
* Deslocamento dos corpos e dos pontos de referência
Ao contrário de um terremoto, as vítimas podem se deslocar por quilômetros quando ocorre um deslizamento — além disso, as próprias construções podem ser destruídas e ter seus escombros espalhados, obliterando as referências da área afetada.
Enquanto equipes em áreas de tremores têm um mapa com os quais trabalhar, e às vezes até condições de mapear quais os locais das construções onde há mais chances de se encontrar pessoas presas, os resgates em áreas de deslizes são feitos em locais desfigurados.
* Instabilidade do terreno
As equipes de resgate não deverão iniciar os trabalhos nas regiões mais críticas até que o terreno esteja estabilizado, e os sistemas de alerta, instalados. Esses procedimentos são essencias para evitar uma tragédia ainda maior e e riscos para os profissionais.
Tipicamente, encostas onde ocorrem deslizamentos perdem vegetação e continuam propensas a novos desmoronamentos.
Além disso, o perímetro da tragédia é tomado por um lamaçal que dificulta o avanço dos profissionais nos primeiros dias após a avalanche, que precisam colocar pranchas de madeira para explorar o terreno.
* Destruição das vias de acesso
No caso da avalanche no Nepal e no Tibete, muitas das estradas que levam às cidades e vilarejos atingidos foram arrastadas pela correnteza. Isso impõe um desafio logístico às equipes, que precisam trabalhar com rotas alternativas para estabelecer cadeias de suprimentos.
* Dificuldades de escavação
Com o material do deslizamento assentado, a escavação e exploração dos escombros é muito mais difícil do que no caso de um terremoto, por exemplo. Isso torna o trabalho de recuperação dos corpos mais demorado, e os deixa mais expostos à degradação física e à decomposição.
Isso também faz com que, ainda que um corpo seja localizado, seu resgate seja mais difícil ou até mesmo inviável.
Mesmo que as equipes de resgate identifiquem a localização de uma vítima, ela pode estar profundamente presa em lama compactada, cercada por rochas, troncos de árvores e materiais estruturais. (Com informações do portal de notícias g1)