Quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

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Caso Kiss: júri já é o mais longo da história do Judiciário gaúcho

Terminou na noite desta segunda-feira (6) o depoimento do percussionista da Banda Gurizada Fandangueira, Márcio André de Jesus dos Santos, última testemunha a ser ouvida nesta segunda, sexto dia de júri do caso Kiss. Com isso, o julgamento já é o mais longo da história do Poder Judiciário do Rio Grande do Sul, ultrapassando o júri do caso do menino Bernardo, ocorrido na Comarca de Três Passos, em 2018. Na ocasião, o julgamento de 4 réus (o pai da criança, a madrasta, uma amiga dela e o irmão) durou 5 dias (mais de 50 horas, no total).

Antes de Márcio, houve as oitivas (ato de ouvir as testemunhas ou as partes de um processo judicial) de Stenio Rodrigues Fernandes, Willian Renato Machado e Nathália Daronch, respectivamente, testemunha e vítimas arroladas pela defesa de Elissandro Spohr, o Kiko, sócio da casa noturna. A defesa de Mauro Londero Hoffmann, outro sócio, abriu mão de uma testemunha. Já foram realizadas 20 oitivas, restando outras 8.

Depoimento

Não foi a primeira vez que a Banda Gurizada Fandangueira tocou na Boate Kiss utilizando artefatos pirotécnicos. A afirmação é de Márcio André de Jesus dos Santos, testemunha indicada pela defesa do irmão dele, o réu Marcelo de Jesus dos Santos. Ele também disse que o uso de pirotecnia era de conhecimento de Elissandro.

“Meu irmão e Luciano não quiseram matar ninguém. Se eu disser para os pais que eu entendo a dor deles, estou mentindo. Eu entendo a nossa dor”, afirmou. “Tenho um filho de 9 anos, nunca cantamos parabéns para ele. Não comemoramos mais o aniversário da nossa finada mãe. Se fizer um almoço lá em casa, tem que ser em silêncio. Porque as pessoas dizem ‘olha lá, os caras da Kiss comemorando’. Essa é a nossa dor”, ressaltou Márcio. Ele também disse que não aceitou depor na condição de vítima, mas apenas de testemunha, porque os companheiros dele de banda não tinham a intenção de matá-lo.

De acordo com o relato de Márcio, a Gurizada Fandangueira foi formada no final de 1998 e, desde então, utilizava esses recursos de pirotecnia. “Era um assunto que dava certo, que nunca prejudicou ninguém”. Danilo (o gaiteiro da banda que faleceu no incêndio) era o líder do grupo e quem fazia as negociações. Luciano era o roadie e quem cuidava dos efeitos especiais. “É um cara de bom coração, proativo, que não esperava as coisas acontecerem”. Fazia 7 meses que o produtor estava com a banda.

Com estilo sertanejo, o grupo agradava especialmente o público universitário. Pelas apresentações, recebia em torno de R$ 700 reais. Individualmente ganhavam cerca de R$ 50 reais, quando havia a participação de músicos de fora de Santa Maria.

Na noite do incêndio na Boate Kiss, quando foram acionados os fogos de artifício, Márcio disse que viu o princípio de fogo e cutucou o irmão, Marcelo. A música parou. “A sensação que eu tive era de impotência”. A testemunha disse que foi alcançado um extintor de incêndio e um rapaz tentou usar, mas não funcionou. “Ninguém atinou em avisar ninguém. A nossa expectativa era apagar o fogo. Quando a gente viu que não ia conseguir, já era tarde demais”, afirmou o ex-percussionista.

Na fuga, Danilo pediu que Márcio afrouxasse a gaita das costas dele. “Danilo foi encontrado (sem vida) dentro da boate com a gaita pendurada no peito”, contou o ex-colega. Quando a correria começou, ele disse que Marcelo perguntou pelos “guris” (os outros integrantes da banda), mas mão encontravam ninguém. Marcelo ficou desorientado e quase desmaiou. Foi Márcio quem arrastou o irmão para a saída. Ao chegar na porta, caíram e foram esmagados pelos que vinham atrás. “Era muito desespero, uma tristeza”.

Márcio disse que viu Kiko já fora da boate, “em desespero”. “A polícia e os bombeiros não tinham discernimento para nos ajudar, imagina nós”, afirmou.

Estão previstos ainda mais 8 depoimentos, antes que comecem os interrogatórios dos réus.

Resumo da tragédia

O incêndio da Boate Kiss aconteceu na madrugada de 27 de janeiro de 2013, em Santa Maria. De acordo com o processo, a tragédia foi provocada pela imprudência dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira em usar artefato pirotécnico dentro de um ambiente fechado e pelo fato de haver aglomeração de público além da capacidade prevista no local.

As chamas se alastraram rapidamente por causa do material inflamável usado como isolamento acústico, que produziu uma fumaça preta e tóxica. A boate estava lotada, e não havia saída de emergência. Morreram 242 pessoas e 636 ficaram feridas.

São réus pelas mortes os sócios da boate Kiss Elissandro Callegaro Spohr, 38 anos, e Mauro Londero Hoffmann, 56, além do músico Marcelo de Jesus dos Santos, 41, vocalista da banda Gurizada Fandangueira, e do produtor e auxiliar de palco Luciano Bonilha Leão, 44.

Com base nos inquéritos da Polícia Civil e Brigada Militar, eles foram denunciados pelo Ministério Público por 242 homicídios consumados com dolo eventual (quando se assume o risco de matar) e 636 tentativas de homicídio.

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