Sábado, 29 de agosto de 2026
Por Redação do Jornal O Sul | 28 de agosto de 2026
As investigações sobre a produção do filme “Dark Horse”, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro, e os inquéritos contra o empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, colocaram os ministros Flávio Dino e André Mendonça como os principais antagonistas na divisão interna do STF (Supremo Tribunal Federal).
Ambos têm em seus gabinetes processos tramitando sobre os dois assuntos, considerados as principais armas das campanhas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Um interlocutor dos ministros chegou a classificá-los como os atuais “cabeças de chave” de suas respectivas alas na corte.
Na cúpula do Supremo, a leitura é a de que são altas as chances de Dino e Mendonça terem entendimentos jurídicos distintos sobre uma mesma matéria. Com isso, o ritmo e os métodos adotados por um podem interferir no andamento dos processos do outro, agravando os pontos de atrito.
Ambos colecionam divergências em julgamentos no Supremo. Nas ações penais sobre os ataques de 8 de Janeiro, por exemplo, Mendonça votou para absolver acusados ou aplicar penas menores, enquanto Dino foi um dos magistrados mais firmes em defesa das condenações.
O antagonismo entre eles ganha ainda mais peso no contexto eleitoral, uma vez que as eventuais decisões dos ministros nos casos Lulinha e “Dark Horse” podem ter impactos positivos ou negativos para as campanhas de Lula ou de Flávio. Mendonça foi indicado pelo ex-presidente Bolsonaro, enquanto Dino chegou à corte nomeado pelo petista.
Na sexta-feira (21), por exemplo, Dino autorizou o acesso da Polícia Federal às provas coletadas pela Polícia Civil de São Paulo sobre a produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme sobre Bolsonaro. O material vai turbinar a investigação sobre a destinação de emendas parlamentares ao longa-metragem, que está sob sua relatoria.
A PF ainda não fez o mesmo pedido a Mendonça, responsável pelo inquérito que apura repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ao filme. A investigação foi aberta após vir à tona um áudio em que Flávio pede R$ 61 milhões ao empresário para finalizar a obra.
O fato de os dois ministros terem sob a sua responsabilidade inquéritos que apuram um suposto tráfico de influência por parte de Lulinha também tem gerado um impasse sobre o destino desses processos — se ficam no Supremo ou se serão enviados à primeira instância.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) fez o pedido a Mendonça, responsável por duas investigações contra o filho de Lula. Não há informações sobre um requerimento semelhante feito ao gabinete de Dino, que é relator de um terceiro inquérito sobre Lulinha. Mas a expectativa é a de que a decisão do primeiro influencie na do segundo.
Mendonça sinalizou a pessoas próximas que planeja negar o pedido da PGR e manter os inquéritos sob a sua relatoria. Ele entende que as conversas interceptadas pela PF ainda podem apontar para a participação de pessoas com foro especial, o que justifica a tramitação do caso no Supremo.
Já Dino, segundo um auxiliar, inicialmente seria a favor de enviar ao primeiro grau por não ver envolvimento de autoridades com foro. Porém, como os casos são parecidos, ele se preocupa com uma possível falta de uniformidade no tratamento. Por isso, se Mendonça mantiver seus processos na corte, Dino também pretende fazê-lo.
O senador nega irregularidades quanto ao financiamento do filme, diz que o assunto é uma “página virada” na campanha e que a produtora já demonstrou que “estava tudo certinho”. A defesa de Lulinha afirma que as suspeitas de tráfico de influência são “um quebra-cabeças de ilações”. Em entrevista à Record, Lula disse que seu filho não está acima da lei e que a PF tem liberdade para investigá-lo.
A relação entre Dino e Mendonça é classificada por interlocutores de ambos como cordial na convivência pessoal, mas conflituosa em termos jurídicos. No ano passado, ambos tiveram uma discussão acalorada em plenário ao discutir se as penalidades deveriam ser mais duras em caso de crimes contra a honra de servidores públicos. (Com informações da Folha de S.Paulo)