Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

China e o apoio militar à Rússia: um jogo de alto risco

A ministra do Exterior da Alemanha, Annalena Baerbock, revelou que teve conversas com diplomatas chineses exortando Pequim a não enviar à Rússia itens bélicos ou produtos que possam ter uso militar na guerra na Ucrânia. Essas conversas foram realizadas durante a Conferência de Segurança de Munique.

A declaração da ministra alemã vem um dia após o secretário de Estado americano, Antony Blinken, ter dito que Washington tem informações de que Pequim estaria considerando enviar apoio militar letal à Rússia.

“Até ao momento, empresas chinesas […] forneceram apoio não letal à Rússia para uso na Ucrânia. Agora estamos preocupados com a informação de que estão considerando fornecer apoio letal”, disse numa entrevista, sublinhando que esse cenário teria “sérias consequências”.

O chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Josep Borrell, também advertiu que uma eventual decisão de Pequim de fornecer armas à Rússia ultrapassaria uma “linha vermelha”.

Pequim negou que Moscou tenha solicitado o fornecimento de material militar, disse ter uma posição de neutralidade e de apelo à paz na guerra na Ucrânia, e criticou os Estados Unidos por seu envolvimento no conflito.

Resposta

Nessa semana, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, Wang Wenbin, acusou Washington de “inflamar as chamas e provocar confrontos” ao fornecer armas à Ucrânia, com o objetivo de lucrar.

“São os Estados Unidos que ficam fornecendo armas ao campo de batalha, e não a China […]. O princípio que orienta a China na questão da Ucrânia pode ser simplesmente resumido como: promover conversas pela paz.”

Wang frisou que a China “nunca aceitaria acusações e coerções” a respeito da relação entre Pequim e Moscou, que segundo ele baseia-se nos princípios de não-alinhamento e não-confrontação: “Os Estados Unidos não estão em nenhuma posição de fazer exigências à China.”

Posição

O debate sobre um possível envolvimento de Pequim no conflito bélico surge às vésperas de a guerra completar um ano, e após vários meses sem grandes evoluções nas frentes de combate.

A China até o momento vem tentando manter uma linha tênue e dúbia em relação à guerra na Ucrânia. Por um lado, se recusa a criticar a Rússia pela guerra e não usa palavra “invasão”, sinalizando simpatia para com Moscou.

Pequim também já declarou que a Rússia teria sido provocada a agir diante da expansão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), uma narrativa propagada por Moscou. Algumas semanas antes do início da invasão, o presidente chinês, Xi Jinping, e seu homólogo russo, Vladimir Putin, divulgaram um comunicado conjunto comprometendo-se com uma “amizade sem limites” entre seus países.

Desde o início da guerra, em 24 de fevereiro de 2022, a China também manteve suas relações comerciais com a Rússia, incluindo a compra de petróleo e de gás, importante fonte de recursos para o regime de Putin.

Ao mesmo tempo, a China reitera que a soberania e a integridade territorial de todas as nações devem ser respeitadas, e até o momento não confirmou um convite, aguardado por Putin, para que ele faça uma visita oficial a Pequim no primeiro semestre do ano corrente.

Consequências

Blinken declarou durante uma visita a Ancara, na Turquia, que haveria “consequências reais” se a China fornecesse apoio material letal à Rússia ou ajudasse Moscou a contornar sanções internacionais “de forma sistemática”, e sublinhou que países aliados aos EUA tomariam medidas semelhantes – mas não detalhou quais seriam as consequências.

O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, foi mais longe em uma entrevista publicada pelo jornal alemão Die Welta, e disse que, se a China apoiar militarmente a Rússia, isso provocaria uma guerra mundial.

“Para nós, é importante que a China não apoie a Federação Russa nesta guerra. Na verdade, gostaria que ela estivesse do nosso lado […] No momento, porém, não acho que seja possível”, disse o chefe de Estado.

Tensão

As relações entre Estados Unidos e China estão num de seus momentos mais tensos em décadas. Washington vem procurando limitar o acesso chinês a microprocessadores e máquinas mais modernas, e desafia as reivindicações territoriais de Pequim no Mar do Sul da China.

Para os chineses, a questão mais delicada é o apoio dos EUA a Taiwan, a ilha democrática autogovernada que Pequim considera seu território, podendo ser ocupada por força militar, se necessário. Taiwan é um grande cliente das armas defensivas americanas e vem recebendo altas autoridades do país ocidental, para desagrado do governo chinês.

 

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